8 de dezembro de 2016

Myrtle Beach







Quando saí de Washington estavam 10º de temperatura, o que já não considero frio. À medida que fui andando para Sul naquele dia a temperatura foi aumentando a um ritmo de 1º por cada 100 Km. Pelas cinco da tarde, quando parei em Warsaw estavam 16º e quando acordei no dia seguinte, tinha subido para 22.
Passei em Myrtle Beach que pensei ser atrativa mas não é mais que uma espécie de Quarteira à Americana, com prédios em cima da praia.
Aliás tanto a costa da Carolina do Norte como da Carolina do Sul não têm grandes atrativos nem sequer estradas junto ao mar. Já na Georgia, mais a Sul, as ilhas St. Simons e Jekyll são fantásticas. Muito bem arranjadas com casas típicas americanas, em madeira pintada, junto ao mar e em condomínios bem tratados, com bons campos de Golf.
Quando deixei as ilhas através de uma ponte de ligação ao continente ao meu lado vinha um carro fantástico. Tinha a cabine de uma VW pão de forma dos anos 60 mas muito rebaixada. Para a frente saía uma parte do chassis tubular que segurava a suspensão VW transformada. Atrás da cabine cortada estava montado um motor V8, em posição central, a debitar 400cv., transmitidos às largas rodas traseiras através de uma caixa automática. Estava extraordinário. Fiz sinal ao homem e quando parou nos sinais luminosos tirei umas fotografias. Indaguei que motor tinha aquele engenho e, depois de uma pequena troca de palavras, ele perguntou se eu não queria ir até à garagem dele ali perto.
A garagem do Ben tinha vários projetos, cada um mais louco que aquele, uns acabados e outros em fase de iniciação. Entre os primeiros estava uma pão de forma dos anos 60 com motor eléctrico e uma moto/bicicleta eléctrica, com um quadro e rodas de uma moto de grande cilindrada, uns pedais de bicicleta que davam uma ajuda ao motor eléctrico alimentado por uma torre de baterias de Lithium. O Ben contou-me que deixava os condutores de boca aberta quando passava por eles na auto estrada naquele engenho, a dar aos pedais, a 140 Km/h.
O Ben é uma espécie de Professor Pardal dos tempos modernos, com uma imaginação fértil e a sorte de viver num país onde qualquer um pode construir um carro ou moto, pedir uma matricula e circular legalmente com ele.
Quando entrei na Florida apanhei finalmente uma estrada junto ao mar mas, quando parei para tirar umas fotografias sem sair de cima da moto uma das luvas caiu ao chão e em vez de colocar a moto no descanso para a apanhar decidi esticar-me. Desequilibrei-me e deixei a moto cair. Resultado: A maneta da embraiagem e a peseira do lado esquerdo partidas. Um homem que vinha de bicicleta parou logo para me ajudar a levantar a moto e tive que arrancar a carregar na embraiagem com dois dedos no que restava da manete e circular com o pé esquerdo pousado em cima do motor. Assim fui até à próxima cidade, Jacksonville, onde procurei o concessionário da Honda. Não tinham peseiras para a minha moto mas o simpático empregado acabou por desmontar uma, usada, que estava agarrada a parte de uma velha Gold Wing e ofereceu-ma.
Entretanto eram seis da tarde e o sol tinha-se posto de maneira que fui à procura de um Motel na cidade e deixei a montagem da peseira e da manete suplente, que trazia comigo, para a manhã seguinte. A peseira, para que fixasse, tive que a montar ao contrário e entalar por baixo um calço de alumínio feito com uma parte partida da antiga. Ficou impecável, até ter uma nova.
Nesse dia continuei a caminho de Miami mas sempre que possível escolhendo a estrada A1A que segue junto à costa. Passei em Daytona Beach, que num enorme sinal à entrada da praia anuncia “Daytona Beach. A praia mais famosa do mundo”. Comprei um bilhete para poder andar com a moto na praia embora não tenha muita graça porque o limite de velocidade, que eles insistem para se cumprir, são 10 milhas/hora (16 Km/h). Fui um pouco mais depressa mas mesmo a 40 Km/h a Cross Tourer, com o peso que carrega, tinha tendência para se enterrar de maneira que, antes que espetasse a cara na areia e partisse outra manete, percorri só a primeira parte da praia.

5 de dezembro de 2016

Washington D.C.


Fiquei três noites em Washington. Visitei o Memorial dedicado ao Presidente Lincoln, a quem os americanos dão grande importância não só por ter sido quem governou durante a guerra civil, mas principalmente por ser o grande responsável pelo fim da escravatura, e os dois “memorials” dedicados aos combatentes das guerras da Coreia e Vietnam. O primeiro com estátuas de soldados implantadas num campo de erva, reproduzindo um campo de batalha,  muito bem feito, e o segundo um enorme muro em mármore preto, com uns bons cem metros de comprimento e cerca de dois de altura, onde estão gravados os nomes de todos os perto de sessenta mil americanos que morreram na guerra do Vietname. Impressionante. Ainda hoje, mais de 40 anos passados sobre o fim da guerra, familiares continuam a ir lá colocar fotografias, flores e bandeiras americanas junto de alguns dos nomes.
No dia anterior tinha passado um par de horas no excelente art museum com obras dos principais pintores europeus dos séculos XV a XX e de um ou outro americano do final do século XIX e inícios do século XX.
Quando passeava pela cidade, acompanhado de uma das minhas cunhadas que ali vive, passei por um grupo de polícias que guardavam um dos acessos à Casa Branca com as suas Harleys. Pedi para tirar uma fotografia e um deles achou graça e convidou-me a fazer pose frente às motos com ele. Sugeri tirar outra a fingir que me prendia e ele, divertido, mandou-me deitar no capot do carro da polícia para fazer o “teatro”. Só nos Estados Unidos a policia alinhava numa brincadeira destas. Fantástico.
Da parte da tarde visitámos o museu do ar, onde têm expostos não só vários aviões da primeira e segunda guerras mundiais como cápsulas das missões Apollo e outras partes dos gigantescos foguetões que levaram uma dúzia de homens à lua entre 1969 e 1972, passando ainda por outras curiosidades como o  original “Spirit of Saint Louis”, o primeiro avião a atravessar o Atlântico sem escalas. O jovem Charles Lindbergh levou mais de 33 horas, em 1927, para ir de Nova Iorque a Paris, onde aterrou em frente de uma população delirante.
Durante a visita conhecemos um aviador reformado americano que nos explicou pormenores fascinantes sobre o funcionamento dos foguetões que foram à lua e as várias partes dos mesmos que iam ficando pelo caminho. Não tinha ideia que na primeira viagem, em 1969, Michael Collins tinha ficado numa parte da nave em órbita e só Neil Armstrong e Buzz Aldrin aluaram, descendo do módulo e caminhando na superfície da lua de onde recolheram materiais para posterior análise. Antes de partirem deixaram o material de que não precisavam em solo lunar, incluindo as suas mochilas, para tornar a nave, já em tamanho muito reduzido, mais leve. Para descolar da lua no regresso, como é evidente, é preciso muito menos potencia dos motores e quantidade de  combustível do que quando estão sujeitos à força da gravidade na terra.
Se no início da missão o enorme foguetão lançado de Cape Canaveral tinha 111 metros de comprimento, no fim, a única parte que regressava à terra era o pequeno módulo que caia de para quedas no Pacifico com os três astronautas dentro, que não tinha mais de quatro ou cinco metros de diâmetro e uns três de altura. Impressionante.
Ao todo houve seis missões que levaram homens à lua, entre 1969 e o inicio dos anos 70. As duas ultimas transportaram os buggies lunares que permitiram aos astronautas deslocarem-se já umas centenas de metros no solo lunar e que lá ficaram, abandonados.
O Tenente Don Baier era muito simpático e contou-nos que, quando pilotava sobre o Atlântico, há largas dezenas de anos, e perguntava aos controladores aéreos portugueses, na base dos Açores, se não estava demasiado vento para poder aterrar estes indagavam primeiro: traz correio? Se ele dizia que sim, por mais vento que estivesse, diziam sempre que a velocidade máxima das rajadas era de 35 nós, o limite em que estavam autorizados a aterrar. Numa altura em que havia poucos meios de comunicação, os controladores esperavam ansiosamente por notícias dos familiares que estavam emigrados nos Estados Unidos.




3 de dezembro de 2016

Chicago


Na noite em que cheguei a Chicago fui jantar a um “Portillos” que havia perto do Hotel. São restaurantes italianos baratos que penso só existirem aqui mas com enorme sucesso. Utilizam o sistema Americano de se fazer o pedido ao balcão e pagar para depois chamarem pelo numero da encomenda e entregarem o jantar num tabuleiro que levamos para a mesa. As bebidas são compradas diretamente no bar. Este Portillos, tal como os outros, tem enorme sucesso e está sempre com muito movimento. Pedi uma “Peasant’s pasta” que estava optima.
No dia seguinte dei uma volta pela cidade e fui visitar o sensacional Art  Institute of Chicago, que rivaliza com os bons museus de arte europeus.
No terceiro andar, reservado à arte moderna, uma completa coleção que inclui quadros de Miro, Chagall, Picasso, Dali, Braque, Matisse e ... um do nosso Amadeu Souza Cardoso. No andar de baixo, da arte Contemporânea, o destaque vai para Andy Warhol mas expõe obras de muitos outros autores famosos, algumas, como de costume, a fazerem-nos duvidar da qualidade do artista quando o leva a produzir, por exemplo, um quadro totalmente branco com uma moldura amarela seguida de outra castanha. Ou, simplesmente, um monte de rebuçados, embrulhados no seu papel, a um canto da sala. Apetece tirar um e comer mas provavelmente iria preso por danificar uma obra de arte. Modernices que me recuso a entender.
Acabei por estar só um dia em Chicago, que me soube a pouco, mas o tempo iria piorar e tive medo que começasse a nevar o que me poderia prender por ali.
Arranquei na tarde em que visitei o museu e andei  pouco mais de cem quilómetros.
No dia seguinte estava a chover forte e não ameaçava parar. Ainda pensei em ficar pelo Motel mas não tive paciência. Passei o dia debaixo de chuva e com 5 a 6º de temperatura. Pelas cinco da tarde encontrei um Motel em Fort Wayne, Indiana, perto de Decatur, onde queria visitar a fábrica da Monaco, as melhores motorhomes americanas.  Não me lembrei que era dia de “Thanksgiving” que é esta desculpa americana para reunirem a família um mês antes do Natal. Estavam fechados até à segunda feira seguinte. Continuei em direção a Washington e qual não foi o meu espanto quando, sem prever, estava a passar à porta da fábrica americana da Honda, onde fazem o novo NSX. Também estava obviamente fechada mas o segurança deixou-me entrar, para tirar umas fotografias no Hall onde estava não só um dos novos NSX, como outro despido de carroçaria e um dos antigos, idêntico ao que Senna costumava usar em Portugal.
Esta zona de Illinois é onde estão sediadas muitas das industrias americanas, como a General Motors e constatei que foram buscar alguns dos nomes das suas marcas a cidades locais como Pontiac, Plymouth, etc.
Segui depois em direção a Washington DC. Esta zona dos Estados Unidos tem vegetação e campos cultivados com pequenas vilas típicas pelo meio, onde as casas são quase todas em madeira pintada com um pouco de terreno relvado à volta. Exatamente como vemos nos filmes.
Os dias continuam frios mas pelo menos não chove. Numa mercearia de bomba de gasolina comprei umas luvas em tecido grosso por dois dólares que passei a colocar por cima das que tinha e me protegem bem do frio.
Washington D.C., a capital, não pertence a nenhum dos estados americanos. É uma cidade encaixada entre Maryland e Virginia com um estatuto próprio e onde está a Casa Branca, o Capitol, onde se reúne o Congresso, o Pentágono, etc. É também aqui a sede da Smithsonian, uma espécie de Gulbenkian americana, proprietária dos principais museus da cidade, dos melhores dos Estados Unidos.



1 de dezembro de 2016

St. Louis






Em St. Louis fui ainda visitar um pequeno museu de motos, junto ao stand do concessionário local da Triumph e Ducati, e o Art Museum, no Forest Park, o segundo maior parque de cidade nos Estados Unidos, a seguir ao Central Park.
O Art Museum é alimentado financeiramente por doadores que preenchem um quadro à entrada que refere os nomes de quem deu entre 100.000 e 250.000 dólares ou quem contribuiu, entre privados e firmas locais, de 250 a 500.000 ou entre 500.000 e um milhão de dólares. Uma solução tipicamente americana que não “encaixaria” em qualquer outro país no mundo.
Estas fenomenais ofertas permitem que o museu tenha obras não só de grandes artistas americanos como quadros de Picasso, Van Gogh, Monet, etc.
Por fim visitei o sensacional City Museum. O fundador, que morreu ao capotar um Caterpilar quando trabalhava numa das suas obras, projetou uma estrutura que parece saída de um filme do Harry Potter, com um autocarro de escola que dá a ideia de estar em equilíbrio no topo do prédio de sete andares, velhos aviões pendurados por ferros junto a torres de castelos em pedra ou guaritas de palácios metálicas, tudo ligado por estreitos túneis construídos em grossos arames que as crianças se entretêm a percorrer ou enormes escorregas em chapa que descem no interior ou exterior de uns andares para os outros, bares extravagantes, estátuas de dragões e animais imaginários, tudo com uma criatividade original e genial. Fui lá num domingo à tarde e o museu estava cheio de famílias com muitas crianças a divertirem-se de uma forma que faziam lembrar crianças das gerações em que nos pendurávamos nas árvores e descíamos as ruas de carrinhos de rolamentos. Numa altura em que os miúdos se habituaram a ficar fechados em casa agarrados aos computadores, é refrescante verificar que ainda é possível entretê-los com outras coisas.
Em St. Louis fui ainda com os Gunther, familia em casa de quem fiquei, assistir a um concerto de um fantástico guitarrista russo no Sherton, uma “velha” sala de espetáculos relativamente pequena e intimista.
Depois de quatro dias bem passados em St. Louis fiz-me à estrada a caminho de Chicago. O tempo arrefeceu bastante e parece que o inverno veio para ficar. Na estrada estão entre 5 e 6º e não se vê mais nenhuma moto a circular. Quando paro nas bombas de gasolina ou pequenos restaurantes de “fast food” para almoçar as pessoas olham para mim como se de um extra terrestre se tratasse e perguntam-me se o blusão tem aquecimento eléctrico ou se a moto tem pneus de neve. Como só saí perto do meio dia não cheguei a Chicago e fiquei num Motel de beira de estrada para atingir a cidade na tarde do dia seguinte. Pelo caminho, sempre que pude, fiz desvios pela “Historic 66” que acabava, ou começava, precisamente em Chicago. A cidade, junto ao enorme lago Michigan, ganhou grande projeção quando St. Louis recusou a passagem da linha férrea, no início do século XX, por temerem trouxesse gente má à cidade, e esta fez o seu trajeto para a costa ocidental através de Chicago.
Cheguei a meio da tarde. A menina da recepção disse-me que, para estacionar a moto, só na garagem do Hotel ao lado.
- Quanto custa?
- Uns 40 dólares.
- O quê??? Nem pensar. E na rua?
- Terá que colocar moedas a cada duas horas até à meia noite e a partir das sete da manhã.
- Também não me parece. Vou deixá-la em cima do passeio.
- Em cima do passeio??? É proibido. Acho que a vão rebocar.
- Com o cadeado na roda é complicado. E lá estacionei a moto no passeio, com um ar bem arrumado e imenso espaço para os peões.
O porteiro preto, rapaz dos seus trinta anos, achou graça e quando me trazia as malas para o quarto disse a rir-se:
- I like you, man. You’re cool.   

29 de novembro de 2016

Oklahoma


Saí de Cuba ainda em direção ao Sul pois tinha ideia de apanhar a famosa “Route 66” em Albuquerque para nela percorrer o caminho até St. Louis, cerca de 1700 Km.
A estrada mais famosa dos Estados Unidos, construída em 1926, ia de Chicago a Los Angeles e, durante décadas, foi a estrada preferida para ligar o Oriente à costa Ocidental do país. Começou por ser em terra mas em 1938 tornou-se a primeira, nos Estados Unidos, a ser totalmente alcatroada.
Hoje em dia cheguei à conclusão que está longe de existir como era. Na parte que percorri entre Albuquerque e Oklahoma há apenas pequenos troços, outra parte tendo sido “engolida” pela autoestrada que construíram no mesmo trajeto. Quando circulamos nessa autoestrada nos locais das vilas há sinais a indicar “Historic Route 66”. Para os americanos, tudo o que tem mais de cinquenta anos é histórico. Nestes locais a estrada que passa dentro das vilas ainda é a original “Route 66” para pouco depois voltar a desembocar na auto estrada. Nestas pequenas partes em que existe, nos cerca de 900 Km que separam Albuquerque de Oklahoma, a estrada tem muitas bombas de gasolina e velhos cafés abandonados, com carros velhos e podres encostados à porta. A velha estrada perdeu os clientes para a autoestrada e o comércio faliu. Parece um filme de holocausto onde as pessoas tiveram que abandonar o local rapidamente depois de uma catástrofe e tudo ficou como estava, os elementos da natureza tratando de desfazer o que ainda estava de pé.
Insólito, no meio de todo este abandono, é terem montado nos terrenos de uma velha estação de serviço, uma moderna estação de carregamento de carros eléctricos das que a Tesla tem implantado um pouco por todo o país, para que os seus clientes possam viajar através dos Estados Unidos tendo sempre onde carregar as baterias.
A partir de Oklahoma a situação muda. A velha “66” ainda lá está, a paisagem é menos desértica que no Estado do México, e as vilas e cidades estão mais arranjadas, até com um ou outro museu dedicado à famosa estrada.
Fui visitar o museu em Elk City e nesse dia acabei por ficar em Tulsa.
No dia seguinte deixei o Hotel mais cedo que o costume pois tinha um longo caminho a percorrer até St. Louis, onde iria ficar em casa de amigos. Voltei a abandonar a autoestrada sempre que indicavam desvios através da “Historic Route 66”. As pequenas vilas por onde passamos têm sinais em hotéis, velhas bombas de gasolina ou cafés a recordar a ligação à velha via. O numero 66 ficou na memória de todos os automobilistas.
Uma história curiosa é a de um velho homem do petróleo texano, um tal Mr. Philips, que procurava um nome para as bombas de gasolina que iria lançar no mercado. Quando passava na “66” e achou que o seu “chauffeur” ia depressa de mais perguntou-lhe a que velocidade circulavam.
-“A 66”, respondeu o homem. Vamos a 66 milhas na Route 66.
Ao que o patrão respondeu:
- Boa Ideia. Vou chamar-lhe 66, Philips 66. E assim ficou.
Fiquei em St. Louis durante quatro dias. Recebi lá as peças da suspensão que tinha que mudar na moto mas depois de ter desmontado parte das ligações ao amortecedor cheguei à conclusão que faltava o rolamento do olhal do amortecedor de maneira que voltei a montar tudo com as velhas peças, adiando a reparação para outra cidade.
Em St. Louis fui visitar um fantástico museu automóvel em que a maioria dos carros estava também à venda. Um réplica com peças verdadeiras de um protótipo Ferrari de 1959, que o dono me contou ter sido construído com peças roubadas pelos empregados da fábrica, saltava à vista, assim como outra excelente réplica de um Jaguar “C”, também dos anos 50.
Nesse dia ainda visitei o “History Museum” que gostei imenso. Nunca tinha visto um intitulado museu de História onde as peças mais antigas tinham pouco mais de cem anos.
Numa das salas mostravam o que foi a fantástica exposição internacional organizada em St. Louis em 1904 e que revolucionou a cidade e lhe deu enorme projeção. Na altura St. Louis foi mesmo o maior polo financeiro nos Estados Unidos, a seguir a New York.  A cidade é banhada pelos rios Missouri e Mississippi, o que ajudava nos transportes da época, fazendo florescer a sua economia.
Outra sala tinha em exposição brinquedos dos anos 50, 60 e 70 enquanto uma terceira tinha mais um museu dedicado à “Route 66”. Duas velhotas olhavam para uma pintura de um “drive In” com umas duas dezenas de carros dos anos 50 e 60. Uma lista com os modelos convidava os visitantes a acertarem nas marcas e modelos dos carros. Uma das velhas começou a identificar os carros e não falhou um.
- Você percebe mesmo de carros, disse-lhe.
- Sim. Tinha três irmãos mais velhos.



26 de novembro de 2016

Four Corners


Deixei Monument Valley pelas onze da manhã em direção a Oriente, através de longas rectas traçadas no deserto. Fiz um pequeno desvio para passar em “Four Corners”, o único ponto nos Estados Unidos onde quatro Estados se encontram, os de Utah, Colorado, Arizona e New México. Isto é território Índio, que apanha grande parte do Arizona e regiões dos outros três estados. Nos séculos XIX e XX houve vários acordos feitos entre o governo dos Estados Unidos e diversas tribos de Índios para definirem qual o território que eles poderiam ocupar mas tem havido sempre contestações por parte dos Índios. O que aconteceu na prática foi que os Estados Unidos deixaram para os Índios, na sua grande maioria, terreno de deserto, estéril e seco, onde nem erva daninha cresce. Nalguns locais foi descoberto gás natural, os Índios montaram algumas industrias e uns poucos fizeram fortuna mas a maioria da população dos Native Americans, como eles gostam de ser chamados, vive com muito pouco. Eles são totalmente diferentes dos Americanos, não só na cultura como na maneira de pensar e agir. São muito espirituais e dão imensa importância à terra em si, onde os seus antepassados viveram e os descendentes hão de viver. Nunca aceitaram a ideia de lhes terem ocupado as terras que consideravam suas não como propriedade física mas como local onde viveriam ao ritmo a que estavam habituados, de há muitas centenas de anos a esta parte. Não dão grande importância aos bens materiais mas, como qualquer mortal, gostam de ter o  mínimo para viver. Por tudo isso sentimos uma certa infelicidade na expressão da maioria. São pessoas frias e à primeira vista parecem antipáticos mas quando falamos um pouco com eles percebemos que são boa gente. O Índio que me atendeu no parque de campismo era tão frio e antipático que me fez lembrar os franceses que, com um pouco de conversa mudam de atitude.
Os americanos, de um modo geral, são o oposto. Simpáticos no primeiro contacto dizem-nos logo: Olá, como está você hoje? De onde vem? Para onde vai? Mas no fundo sabemos que obviamente se estão nas tintas para como nos sentimos naquele dia ou de onde e para onde vamos. Claro que é simpático da parte deles mas as frases saem-lhes da boca para fora automaticamente, sem qualquer sentimento. A partir de ali a conversa raramente se aprofunda, porque os atrapalha, sem saberem como reagir.
As tribos, principalmente os Navajo e os Apache, os mais numerosos, sem poderem cultivar as terras que lhes calharam, dedicam-se a negócios pouco lucrativos de produção de colares e artefactos que vendem aos turistas, enquanto o seu governo recebe os impostos sobre a gasolina que se vende no território para além de explorarem os poucos locais turísticos existentes na região, cujo maior será Monument Valley, mas sem jeito nem convicção.
Quando deixei “Four Corners” parei na primeira cidade que encontrei, para almoçar qualquer coisa. Era Shiprock, uma pequena cidade dos Navajo, com menos de 9000 habitantes. Fui a uma Pizzaria comprar uma dose com quatro fatias mas só tive fome para duas. Quando saí com a caixa na mão tentei procurar um Índio a quem a dar mas não foi evidente. Eles são incapazes de pedir mas acabei por a oferecer a um que veio fazer conversa por causa da moto e ficou radiante, dando-me um forte abraço. Quando parti um outro viu a cena e veio-me perguntar se não tinha sobrado pizza. Arrependi-me de não ter ido comprar outra para este ultimo mas só pensei nisso quando já tinha arrancado.
Passados uns quilómetros a caminho do Sul passamos por uma placa que indica território Apache.
Nesse dia fui ficar a Cuba, a umas 70 milhas de Albuquerque. A senhora do Motel era Espanhola mas de início até pensei que fosse cubana e perguntei-lhe se a terra se chamava Cuba por ter muitos cubanos.
- Não, aqui não vivem cubanos, mesmo se muitos vêm da Florida para aqui se casarem por causa do nome da terra. Penso que se chama assim porque em tempos idos era um local com muita água e portanto designaram-no como um depósito de água, “una Cuba de água”.


23 de novembro de 2016

Monument Valley


Quando deixei Salt Lake City, onde montei o novo jogo de pneus na moto, fiz cerca de 200 Km em direção ao Sul e fui ficar na pequena cidade de Price onde tinha combinado jantar com a Filipa, uma rapariga de Braga que o Ross tinha conhecido em Portugal e que ajudou a que fosse admitida na Universidade de Price para estudar Engenharia Espacial, um sonho de criança. A Filipa, de 19 anos, é a única europeia a estudar naquela universidade e estou certo que se vai formar com óptimas notas. Quando a fui buscar para jantar e lhe propus chamar-mos um táxi porque estava frio disse logo que não, que gostava imenso de andar de moto. Muito simpática a desembaraçada, como boa nortenha que é.
No dia seguinte, antes de deixar Price, fui a uma bomba de gasolina para levantar dinheiro numa máquina ATM. Ao meu lado, no seu Chevrolet preto, parou o Sheriff local, um rapaz alto, com menos de 40 anos, cuja farda eram uns Jeans, uma “T” shirt do Trump e um boné da sua equipa favorita de Baseball. Entrou atrás de mim na bomba e ficou, nitidamente, a ouvir a minha conversa com a menina da bomba a perguntar onde haveria outra ATM, com o ar de: “o que é que este forasteiro anda a fazer na minha terra?”. Pensei em pedir-lhe para tirar uma fotografia com aquele traje junto ao carro de Sheriff mas tive medo que levasse a mal e desisti da ideia.
Continuei rumo ao Sul, a caminho dos National Parks “Canyonlands” e “The Arches”. O primeiro é um parque com um enorme vale ao estilo do Grand Canyon e quase tão monumental quanto aquele. O segundo, a meia dúzia de quilómetros tem, tal como o nome indica, uns arcos em rocha que formam uma espécie de pontes naturais. Sensacional.
Nesse dia saí do parque já de noite e instalei-me num Hotel da cidade de Moab para no dia seguinte continuar para sul, agora a caminho de Monument Valley. Cheguei lá pelas duas da tarde e como o único hotel no local era caro e estava bom tempo optei por acampar no parque. Aqui já é Arizona e terra sobre o domínio dos Indios que não só cobram a entrada no parque como estão na recepção do Hotel ou parque de campismo, bombas de gasolina das redondezas, etc. Têm até a sua própria polícia e a dos estados vizinhos não se mete na vida deles.
A paisagem em Monument Valley parece de estátuas que se elevam no meio do deserto. Enormes rochas encarniçadas que atraíam John Ford a ali filmar os seus westerns com John Wayne e outros atores da época.
Depois de montar a tenda fui percorrer a estrada de terra que dá uma volta pelo parque mas, com a suspensão traseira em mau estado, tive que rodar devagar. Quando, três dias antes estava a substituir os pneus, o mecânico veio chamar-me para ver a suspensão traseira da moto. O rolamento do apoio inferior do amortecedor traseiro já não estava lá, certamente devido ao tratamento que a moto levou, com muito peso em cima, nas esburacadas estradas da Índia e Birmânia. Não há nada que aguente. Assim o amortecedor andava apoiado no parafuso, evidentemente com uma enorme folga. Vinha há tempos a sentir a moto com um comportamento em curva deficiente mas sempre pensei que seria por desgaste do amortecedor. O parafuso terá agora que aguentar mais cinco dias, altura em que chego a St. Louis e para onde, desde Portugal, me mandaram as peças de substituição.
Jantei no restaurante do Hotel e fiquei na sala de entrada ao computador até cerca das dez da noite, altura em que fui para a tenda montada num parque de campismo original, numa inclinação em terra com pouca vegetação a dar para as elevações principais de Monument Valley.
Enganei-me a entrar dentro do saco cama ficando na posição para verão, com menos proteção. De noite a temperatura desceu para uns sete ou oito graus e passei um frio de rachar, mesmo depois de estender o blusão por cima de mim a fazer de cobertor extra. Só quando o sol nasceu a temperatura subiu um pouco e, depois de constatar que estava na posição errada do saco cama, consegui dormir um pouco melhor. Quando finalmente acordei já eram nove da manhã.