23 de maio de 2018

Alter do Chão - Amazonas

No rústico bar de praia onde acabara de almoçar anunciavam que se podia pagar com cartão. Com dinheiro quase à justa para a viagem de barco seguinte escolhi essa opção.
- A internet não está cheia, explicou-me o homem quando o rapaz mais novo e que ele anunciou como especialista, não conseguiu fazer funcionar a máquina de cartões de crédito, apesar de a segurar, com a mão esticada ao alto, na procura de mais proximidade ao suposto satélite milagroso.
- Espere um pouco enquanto enche.
- Está bem. Vou dar um passeio pela praia enquanto enche.
Voltei dez minutos depois e o miúdo fez nova tentativa, desta vez em bicos dos pés e fora do telhado de colmo. Como que por milagre a máquina cuspiu o papel que comprovava a transacção.
- Está vendo? Já encheu.
- Fantástico, respondi, mais incrédulo que o homem.
Da parte da tarde aluguei uma lancha para um passeio pelas margens do Amazonas. O dia estava lindo e nesta época de chuvas, permite que os pequenos barcos vão até locais que, na época seca são floresta, através de arvores em parte submersas. É um passeio fantástico. Como que uma caminhada pela floresta mas… de barco.
Parámos num pequeno restaurante onde também se pode chegar por terra. Uma miúda loira de cinco anos andava de baloiço sob o olhar de uma mãe norueguesa.
- Como veio parar ao Amazonas?
- Fartei-me de viver na Noruega e comprei aqui uma pequena propriedade onde vivo com a minha filha.
- O pai dela é brasileiro?
- Não, é mexicano mas separámos-nos. Ela não o conheceu.
Voltei a Alter do Chão e à moto para regressar a Santarém. Nessa mesma noite sairia um barco que descia o Amazonas e me levaria até Belém, onde chegava três dias depois.
Fui primeiro comprar o bilhete e negociar o transporte da moto para depois regressar à cidade tentar comprar um colchão onde pudesse dormir durante a viagem, pois os restantes passageiros estendem redes próprias no convés mas, na noite em que tinha passado pela experiência, na viagem de Itaituba para Santarém, dormira mal.
Encontrei um colchão de encher que, com a bomba manual própria me custou o equivalente a 30 euros e soube-se a cama de Hotel de cinco estrelas durante a viagem de três dias.

Tinham-me pedido para embarcar a moto só às oito da noite e por isso aproveitei para ainda jantar na cidade.

21 de maio de 2018

Santarém - Amazonas

A paisagem das margens deste afluente do Amazonas é fantástica, com a floresta tropical a estender-se até ao rio e, por vezes, este a intrometer-se floresta dentro, formando uma espécie de lagoas, que imaginamos carregadas de crocodilos e piranhas.
Dormi mal na rede, não só por a falta de hábito não me permitir encontrar uma posição confortável como por o abanar do barco a fazer bater contra as dos passageiros do lado.
Atracámos em Santarém às oito e meia da manhã. Carregadores “oficiais”, de “T shirt” azul, entram pelo barco dentro mal este se encosta ao porto.
- Vamos descarregar essa moto?
- Não, que já paguei o dinheiro que tinha ao comandante. Os homens dele descarregam a moto.
Esperei que passasse a azáfama inicial e propus ao comandante que utilizássemos a grande prancha do barco atracado em frente. Ele achou boa ideia e mandou os seus homens buscá-la, o que originou que o comandante vizinho saísse ao cais a protestar.
- Deixe-se de refilar, seu velho. Acha que vamos estragar a prancha? Já lá a colocamos de volta. E dirigindo-se aos seus homens:
- Vá, rápido. Vamos lá. Tragam a moto.
Em três tempos o comandante tratou que colocassem a moto no cais.

Tinham-me recomendado visitar Alter do Chão, a 30 Km de estrada boa, alcatroada, através da floresta.
Quando saía de Santarém vi na beira da estrada um concessionário Honda grande, com bom aspecto. Decidi entrar para saber se tinham máquina de teste electrónico para confirmar se a avaria que a moto tem desde a Argentina provém de algum sensor elétrico, ou é mesmo da bomba de gasolina, como desconfiou o mecânico, de ar competente, que havia na oficina de Cuiabá onde assaram o boi. Ligámos a moto ao aparelho e a única avaria detectada indicava o sensor MAP, o tal que me tinha esquecido de ligar quando troquei velas e filtro de ar. Limpa a avaria no sistema desapareceu o erro. Dá cá 50 Reais (17 euros) e a quase certeza que a avaria só pode ser da bomba de gasolina, que tem sofrido com muitas gasolinas de má qualidade e muito provavelmente contaminadas com água e sujidade.

Cheguei a Alter do Chão por volta do meio dia. Tem uma famosa península em areia com restaurantes de telhado em colmo na praia e mesas no areal, onde se pode almoçar com água morna até à cintura. Tive preguiça de vestir o fato de banho e instalei-me numa mesa à beira rio no restaurante sugerido pelo barqueiro que me levou no bote a remos. Pedi um Pirarucu na manteiga, como me tinha recomendado o meu amigo Armando, de Cuiabá. Esperei uma hora, tranquilamente, a admirar a vista e a ler mas peixe, nem cheiro. Chamei o empregado e perguntei se o tinham ido pescar. Ele puxou uma cadeira e sentou-se à minha mesa para me dar explicações, atitude que traduzi como um mau sinal. Infelizmente estava certo. O gaz tinha-se acabado a meio da fritura e ele próprio, comprovado pelas manchas na “T” shirt branca, tinha ido de bote à vila trocar a bilha. Já não demoraria. Quando finalmente me trouxe o Pirarucu vinha como eu temia: seco da dupla fritura enquanto as batatas cozidas estavam quase cruas. Não deixei de lhe dizer que estava péssimo mas a fome levou-me a comer aquele sem ousar pedir que cozinhassem outro.


19 de maio de 2018

Itaituba - Amazonas

Na manhã seguinte, surpreendentemente, o troço de estrada que me tinham dito estar em pior estado, estava alcatroado de novo e pude percorrer os 130 Km em hora e meia, parando uma ou outra vez para fotografar a exuberante paisagem da floresta amazónica ou um bando de abutres a deliciarem-se com a carcaça de um animal.
Cheguei a Muritituba pelas onze da manhã e entrei directamente na barcaça que estava no cais, com um dos homens a dizer-me para estacionar a moto dentro e ir ao guichet de entrada comprar o bilhete para atravessar o rio Tapajós, um afluente do Amazonas, já com a largura do rio Tejo na foz.
O equivalente a dois euros, a travessia de 15 minutos para mim com a moto, onde a balsa é empurrada por um rebocador, que encaixa a frente numa travessa própria lateral.
Cheguei a Itaituba e dei uma volta pela pequena cidade antes de ir lavar a moto, coberta de lama.
No Hotel Sonho, à beira rio, duas miúdas giras entretinham um cliente de “T” shirt e boné na esplanada. Perguntei ao miúdo que lavava a moto se era bom aquele Hotel. 
- Não se meta com elas, respondeu ele, sábio. Isto é terra de garimpeiros. O último que aí apareceu bebeu lá uns copos e exibiu às raparigas duas pepitas de ouro que trazia consigo. Quando acordou estava trancado no quarto e tinha desaparecido o ouro e tudo o resto que pudesse ter algum valor.
Almocei num dos típicos self service que têm aqui pelo Norte e onde a maioria dos clientes mistura carne de vaca com frango, arroz, espaguete, batata e salada, por o equivalente a três euros, mais dois para o meu habitual sumo de maracujá.
Fui depois ao porto onde me tinham dito que sairia essa tarde o último barco da semana  para Santarém, o porto do Amazonas onde chegam os enormes cargueiros que vêm encher os tanques de soja, rumo ao Atlântico.
O pequeno barco, dos seus 30 ou 40 metros, era o típico dos que vemos nos filmes dos anos sessenta. Fazia até lembrar os velhos barcos a vapor mas sem a enorme roda traseira. Pintado de amarelo e branco o S. Luis tinha dois andares, com uma parte de baixo onde seguia a carga e parte dos passageiros, e um deck superior, os dois abertos lateralmente aos elementos, em terras onde nunca faz frio. Para  proteger os passageiros da chuva lonas laterais que se desenrolam.
A viagem até Santarém dura perto de vinte horas, incluindo a paragem em uma ou outra aldeia à beira rio.
Os cerca de 30 passageiros estendem cada um a sua rede nos dois convés, que se transformam rapidamente num quadro multicolor de redes cruzadas.
Negociei o preço com o comandante sem discutir muito pois não tinha alternativa aquele transporte.
- Mas eu não tenho rede onde dormir.
- Não tem problema. Eu empresto-lhe a minha, respondeu o comandante, ordenando a um dos marinheiros que a fosse estender no andar de cima, mais confortável por não se ouvir tanto o barulho do motor. 

Carregámos a moto e, pelas quatro da tarde deixámos o porto rio abaixo.



14 de maio de 2018

Mato Grosso

Naquela tarde segui tranquilamente até Nova Mutum por uma estrada razoável e alguns pequenos troços de auto-estrada. O problema foram os dias seguintes. No mapa que tinha comprado do Brasil, a partir de certo ponto, a estrada vinha assinalada como sendo de terra mas tinham-me dito que a maior parte já estaria alcatroada. Na realidade o alcatrão está em péssimo estado, com enormes crateras onde, como me avisou um camionista, “cabe lá a sua moto dentro”.
Mas antes passamos por impressionantes plantações de soja e algodão, em fazendas que se estendem por dezenas de quilómetros. Agora é altura da colheita de soja e, na mesma terra passam a plantar algodão ou milho, fazendo render aqueles férteis milhares de hectares de campo.
Os camiões carregam a soja e milho e levam-no ou para Cuiabá, para ser distribuído pelo Sul do país, ou para os portos do Amazonas e afluentes, de onde o cereal segue em balsas rio abaixo até à cidade de Santarém para, carregado em navios, ser exportado.
Na parte da tarde do segundo dia comecei a apanhar “estrada de chão”, como eles aqui chamam às estradas de terra. Estas estão muito degradadas porque são atravessadas por uma média de 1500 camiões por dia a pesarem, por vezes, setenta toneladas. Para além disso, a chuva desta época do ano ajuda à degradação. Em certas zonas começam a formar-se lamaçais e, nas subidas, os carregados camiões ficam por vezes atolados, provocando filas que se estendem por dezenas de quilómetros.
Fui passando por este inferno graças aos pneus de tacos que montei em Cuiabá, a mostrarem-se muito eficientes, mas as enormes vibrações na moto provocadas pelo mau piso abriram rachas nas malas de alumínio, já muito castigadas pelos desastres na Índia.
No segundo dia fiquei na cidade de Guarantá do Norte e no dia seguinte enfrentei a pior parte do trajecto, com piso de terra de muita pedra e chuva torrencial que, por vezes, durava só uma meia hora mas, sem encontrar onde me abrigar, tinha que seguir caminho com visibilidade muito reduzida.
Não costumo sair cedo de manhã. Embora o pequeno almoço nestes hotéis de província seja só servido entre as 6 e as 8,30 da manhã, acabo por deixar os hotéis só entre as 9,30 e as 10,30, a tratar de mails e escrita.
Nestas estradas, com zonas em que não circulo a mais de 50 Km/h, já com a sensação que a moto se vai desfazer, acabo por percorrer só cerca de 300 Km por dia.

No penúltimo dia antes de chegar ao Amazonas fiquei em Novo Progresso, uma pequena vila com apenas dois hotéis. O primeiro que visitei não tinha electricidade há dias de maneira que fiquei no outro, num quarto onde a cama de casal ocupava quase a divisão toda. Quando, na manhã seguinte, quis pagar a conta com cartão de crédito, que normalmente funciona em todas as estações de serviço e hotéis, o homem disse-me que a máquina não funcionava mas não haveria problema porque iríamos pagar a conta do Hotel no supermercado do outro lado da rua onde o gerente, não percebi se por sinceridade ou por não querer continuar com o sistema, disse que a dele  também estava sem rede. 


11 de maio de 2018

Pantanal 4

Em Porto Jofre estava aportado um velho barco de pesca que já não estava em estado de navegar e servia não só de casa aos proprietários como de pequeno bar para a meia dúzia de pescadores que hoje vivem, principalmente, de passear turistas no rio. Pedi para entrar e acompanhei-os nas suas cervejas com vodka a beber uma água. Quando cheguei falavam sobre crimes recentes na zona.
- O meu sonho é comprar uma metralhadora, dizia o mais conversador, já visivelmente afectado pelo álcool.
- Para quê?, perguntei-lhe.
- Para matar dez de uma vez, rátátátátá.
- Mais vale ficar só pela pesca.
- Eu não teria problema em matar dez de uma vez. Não seria como aquele no outro dia ali em Poconé que tinha cinco para matar mas como a sua consciência só lhe permitia matar três por dia, matou três e atou os outros dois para os matar no dia seguinte.
Mudei a conversa para os passeios de barco para visionamento de Crocodilos e Jaguares, a que eles chamam Onças pintadas. Disseram-me que nesta época do ano vêm-se muito raramente por estarem no interior da floresta. A época boa é em Agosto e Setembro. Nesses meses mais secos os animais vêm até junto do rio. Nos últimos anos dezenas de fotógrafos dos quatro cantos do mundo vêm ali passar uns dias ou semanas para tentarem captar as espectaculares imagens dos Jaguar a mergulharem no rio Cuiabá para caçarem crocodilos.
No trajecto de regresso a Poconé parei no único Hotel a funcionar na zona, o Mato Grosso Hotel, onde almocei e tomei um banho de piscina que mesmo morna me soube a praia caribenha.
Cheguei de volta a Poconé, pelas quatro e meia da tarde, estafado.
No dia seguinte passei em Cuiabá buscar o saco que tinha deixado no Hotel, para não levar tanto peso no passeio fora de estrada, e fui à oficina dos meus amigos mandar um mail e despedir-me.
No almoço do boi um nortenho tinha-me dito que a estrada que eu pretendia apanhar para o Norte, a caminho do Amazonas, estava intransitável, com enormes lamaçais, pois perto de 500 Km seriam em terra e diziam-me que no Pará não parava de chover. Contei isso ao Armando e ele recomendou-me que falasse não só com os policias à saída de Cuiabá como, na bomba de gasolina, com os camionistas que vinham desse lado. O problema é que esta estrada que segue de Cuiabá para Norte pelo interior, até ao rio Amazonas, a famosa Transamazonica, não tem ramificações pois grande parte foi construída através da floresta e passa junto a várias reservas de Índios. Assim, se no final a estrada estivesse intransponível e não me permitisse chegar ao rio Amazonas, teria que retroceder os 1500 Km, fazendo 3000 em vão.
Parei assim no posto de polícia, como o Armando me indicou, mas eles não foram grande ajuda, dizendo que não tinham informação e teria que perguntar mais a Norte, quando estivesse perto da zona em terra.
- Mas, não podem contactar a polícia dessa zona?
- Não. Não temos qualquer contacto com eles.
Mais tarde percebi porquê. Para o Norte, talvez por a densidade populacional ser muito reduzida, não há praticamente polícia. É uma espécie de lei da selva, onde apenas o exercito tem algum controlo. Aquela parte do país, com pequenas cidades de 30 ou 40.000 habitantes, está quase ao abandono.
Segui então a segunda opção para obter informação e fui falar com os camionistas que estavam parados na estação de serviço de saída da cidade. Um deles, simpaticamente, lançou uma mensagem por rádio e pouco depois responderam-lhe que a estrada estava difícil mas os camiões estavam a passar. 

Avancei assim, rumo a Norte, para vir a enfrentar das condições mais difíceis que encontrei nesta viagem de volta ao mundo.


9 de maio de 2018

Pantanal 3

O dia seguinte foi dia de boi. O Armando foi ter comigo ao armazém onde de manhã tinha tomado um pequeno almoço improvisado, comprado numa bomba de gasolina na noite anterior, e partimos para a oficina onde acabavam de assar o boi. O dono tinha-me dito para aparecer a partir das oito da manhã, que já haveria festa e, de facto, quando lá chegámos às onze e meia da manhã, já havia muito boa gente com ar de já ter entornado meia dúzia de cervejas no bucho. Uma banda “rock” instalava os instrumentos e, pelo meio dia, desataram numa chinfrineira ensurdecedora enquanto os muitos clientes do boi íam chegando.
Alguns aceleravam as motos a fundo à porta e faziam-nas dar estoiros com cortes de ignição. Um pandemónio infernal. Bebemos uma imperial e o Armando fugiu aos primeiros acordes da banda rock, com a desculpa que tinha uns amigos em casa para almoçar, enquanto eu “ataquei” o boi logo que ficou pronto, que por acaso estava fantástico, e parti para a próxima etapa, mais uma vez Pantanal dentro. Fui nessa tarde até Poconé, uma vila a cerca de 100 Km de Cuiabá. Já perto parei num bar de estrada, uma barraca na floresta com uma mesa de bilhar ao ar livre onde dois vaqueiros, um velho de chapéu à “cowboy” e um novo de boné apostavam umas poucas cervejas, já bem “aviados”. Pedi para me sentar na mesa deles, por ser a única da rudimentar esplanada, com a família do proprietário a ocupar uma grande nas traseiras da barraca. Eram simpáticos os vaqueiros.
- Aqui também há fazendas com mais 50.000 hectares, perguntei?
- Não. Isso é lá para o Sul, onde estão as dos políticos, que são quem tem dinheiro para isso. Aqui somos gente de trabalho e as fazendas raramente ultrapassam os 10.000.
Os brasileiros da província têm todos a ideia que os ricos do país são os políticos, que vêm sempre como bandidos que roubam o dinheiro do povo.
Quando cheguei a Poconé procurei um Hotel onde deixar as malas e parti visitar Porto Cercado. A rapariga da recepção, impressionada com a minha pronúncia brasileira, que utilizo para que me percebam, dizia:
- Mas como é que o senhor, sendo lá de Portugal, fala tão bem português?
- Tenho práticádo, né?

Porto Cercado é um pequeno porto de rio para onde os habitantes de Cuiabá levam pequenas embarcações com que partem pescar no abundante rio Cuiabá.
Estava lá atracado um enorme barco que fazia confusão pudesse navegar em relativamente estreito e certamente pouco fundo rio. O comandante, que me convidou a bordo, explicou que fazem principalmente pescarias de meia dúzia de dias com grupos de duas a três dezenas de pessoas e que o barco, construído para navegar em rios, só cala 1,10 metros.
Regressei ao Hotel de Poconé e, no dia seguinte, entrei pela famosa Transpantaneira e segui até Porto Jofre. São 150 Km em piso de terra bastante esburacado e onde se atravessam mais de cem pequenas pontes em madeira. O trajecto segue dentro deste enorme pântano e floresta, com uma vida animal fenomenal mas que, nesta época do ano, é limitada no visionamento pela enorme quantidade de água que afasta para o interior da floresta animais como os Jaguar ou os próprios crocodilos. Assim, para além das centenas de espécies de aves, algumas de grande porte, vi apenas vários Porcos do mato, por vezes acompanhados de crias, uma espécie de castores de grandes dimensões que andam pelos pântanos.
Mas o passeio é lindo, mesmo se um buraco maior que não vi me fez levar uma pancada no pescoço que me começou a dar dores dois dias depois.



7 de maio de 2018

Pantanal 2




No dia seguinte saí a caminho da loja de computadores mas reparei que o suporte da mala esquerda estava novamente solto. Desta vez perdera um dos parafusos e o outro partira-se. Como me enganei no trajecto para a loja parei junto a uma oficina auto de serviços rápidos para procurar a rua no GPS do telemóvel. Um dos donos veio cá fora, perguntou o que eu procurava e indicou-me o caminho. Perguntei-lhe se sabia onde poderia fixar o suporte da mala e ele disse-me que entrasse com a moto, pedindo a um dos empregados que visse se podia reparar aquilo.
- O meu irmão também tem motos. Vai gostar de o conhecer. Vou ligar-lhe.
E passados dez minutos apareceu o Armando, um tipo com quase dois metros que me apresentou a filha, nos seus 30 anos e da mesma altura que o pai. Propôs-se logo irmos comprar os parafusos para resolver o problema enquanto o mecânico retirava o resto do que se tinha partido. Pelo caminho disse-lhe que precisava também de pneus e tratámos de procurar quem os tivesse.
Voltámos à oficina já com os parafusos e os pneus encomendados para serem montados da parte da tarde. O Armando sugeriu que, se eu ficasse em Cuiabá essa noite, poderia dormir num pequeno apartamento que ele havia construído num armazém.
Com o suporte finalmente bem fixo fui ver o que se passava com o computador que, infelizmente, não tinham conseguido reparar, almocei num shopping center por perto e fui montar os pneus novos que os que tinha montado na Argentina, usados, já estavam nas últimas, para além do facto de desta vez voltar a precisar de pneus de todo o terreno, não só para percorrer a Transpantaneira, como para enfrentar as estradas de terra, muitas delas em mau estado, que me levariam ao Amazonas, para onde pretendia seguir.
Enquanto montava os pneus conheci um “motard” que me disse para aparecer na manhã seguinte numa conhecida oficina de motos onde iriam assar um boi para o almoço.
O Armando também conhecia os donos do boi e, antes de me guiar até ao tal apartamento do seu armazém, passámos por lá ver os preparativos. O homem encarregue de cozinhar o boi tratava de lhe cortar as pernas com um serrote e colocava a carcaça num espeto sobre um improvisado churrasco gigante. O espeto estava ligado a um motor eléctrico cuja desmultiplicação, segundo o Edy, o fazia rodar precisamente a quatro rotações e um quarto por minuto, o segredo para o boi assar lentamente sem que dê tempo à gordura para pingar. Depois, com uma enorme seringa injectou em várias partes do boi, ainda cru, o tempero.
Depois desta visita aos preparativos para a festa do dia seguinte, o Armando levou-me ao tal armazém. Era num local sinistro, em que atravessávamos uma espécie de pequena favela para lá chegar. Já passava das oito da noite e a minha ideia era deixar a mala, ver se estava tudo bem com as roupas da cama, e partir jantar a qualquer lado.
- Não é perigoso eu sair daqui à noite na moto, Armando?
- Não. Sabe porquê? Está a ver este bar aqui ao lado que está fechado?
- Sim.
- Era de um vizinho meu que matou todos os bandidos aqui da zona. Agora já não há perigo.
- Era?
- Sim. Ele morreu há uns meses.
- Como?
- Não se sabe. O filho também tinha morrido dois meses antes sem se saber como.
- Está bem. Então acha que ele matou mesmo os bandidos todos da zona?
- Sim. Isto agora é um local seguro.                                                                                     
E lá saí com a moto jantar a uma esplanada por perto e regressei sem problemas.
Dormi bem no apartamento do armazém, com um imprescindível ar condicionado ligado. Aqui a temperatura nunca baixa dos 30º à noite. De dia é superior.
Quando, no dia anterior, debaixo de 35º me queixei ao Armando que estava muito calor ele respondeu:
- 35º aqui é frio. Normalmente está sempre acima de 40. O ano passado tivemos um pico de 47º. Se não fosse a fraca humidade morríamos.