30 de março de 2017

Bacalar


Depois daquele almoço surreal deixei a estrada principal cinco quilómetros à frente da aldeia onde parara e fui em direcção a Mahahual, uma pequena estância na Costa Caribenha onde quase diariamente atracam barcos de cruzeiro que ali despejam um ou dois milhares de turistas que enchem restaurantes, esplanadas sobre a praia e mesas de massagem, onde raparigas de batas brancas esfregam homens gordos em fato de banho. Tem tudo um ar bastante bera, embora se andarmos um pouco na costa, através de uma estrada de areia, encontramos alguns bares e estalagens com melhor aspecto. Instalei-me no Hotel com o nome da cidade, um três estrelas a cair para uma, mas acabei por jantar excepcionalmente bem no restaurante de um Hostel.
No dia seguinte parti já tarde para Bacalar e, como era o primeiro dia de fim de semana, resolvi marcar estadia. Reservei, sem perceber, uma tenda de campismo, num parque em cima da lagoa. Quando cheguei perto do local, sem haver nomes de ruas ou sinais que se vissem, perguntei onde era aquela “Estrada da Reforma Agrária”. Mandaram-me no sentido contrário da lagoa e eu respondei que não deveria ser mas o homem, persuasivo, respondeu: “Por ali há outra lagoa”. E lá fui eu 25 Km paisagem dentro até uma pequena aldeia onde encontrei um homem de bicicleta que pedi para parar. Vinha de óculos escuros com um ar moderno mas tudo o resto não batia certo com aquele acessório. As calças tinham uma corda de sisal a fazer de cinto e a camisa, já sem metade do forro do colarinho, tinha vários remendos que pareciam ter sido cozidos por ele mesmo. Quando lhe perguntei pelo parque de campismo começou a desbobinar um monte de palavras sem nexo e, por mais que eu dissesse está bem, já percebi, ele não parava de falar e eu não o queria deixar a falar sozinho. Duas miúdas e um rapaz que passavam a pé foram a minha salvação. Mostrei-lhes o papel com a morada. Eles não conheciam a zona e mostraram o papel ao homem que respondeu ser escusado por não saber ler. Agradeci e segui até uma barraca mais à frente onde me informaram do erro que tinha sido levado a cometer, e lá voltei os 25 Km para tras.
Cheguei ao parque ao anoitecer. Tinha uma
situação fabulosa, em cima da lagoa mas tudo o resto era péssimo. As cadeiras à volta das mesas eram em plástico podre e pelos cantos viam-se barcos a motor abandonados e rodas de carroça partidas a fazerem de obras de arte. Um homem a querer dar um ar eficiente veio anunciar-se como proprietário e explicar que ainda não havia água quente nem internet e que estavam em obras mas que dentro de um mês aquele parque estaria um brinco. Difícil de acreditar. A mulher preparou-me um frango com ovos que era tão duro que, mesmo cheio de fome, demorou-me meia hora a engolir, ajudado por um par de cervejas. O único consolo foi terem dois quadrados de chocolate. Anunciou que iria acender uma fogueira para festejar o fim da lua cheia. E por ali fiquei hora e meia à volta do lume, primeiro na companhia de quatro miúdos ingleses sem graça nenhuma, que acabaram a tomar banho na lagoa, e depois de um casal de franceses mais interessante que viviam no México há dez anos, sem vontade de voltarem para a Europa.

Deixei o parque pelas dez e meia da manhã, depois de um pequeno almoço de mais ovos mexidos “overcooked” e passei no outro parque que o casal tinha na cidade para consultar a Internet. Aí encontrei um casal de ingleses que tinha enviado a sua BMW de Inglaterra para Nova Iorque e estavam a passear pelo México há quatro meses. Ele fez-me muitas perguntas sobre a Ásia pois têm ideias de lá ir brevemente.
Parti depois em direcção à fronteira com o Belize. Tinha combinado ficar nessa noite em casa do Cônsul português no Belize, um belizenho.





26 de março de 2017

Mahahual


De Playa del Carmen parti para Sul, em direcção ao Belize. Tinham-me recomendado visitar Tulum, uns 60 Km a Sul e quando ali estava decidi ir até Sian Ka’an, um parque natural, classificado pela Unesco como reserva da Biosfera. É uma zona com grandes lagoas e muita vegetação, maioritariamente de palmeiras, e uma fauna fantástica que inclui crocodilos, que vi na lagoa quando parei em cima de uma ponte, tartarugas, lagartos, a atravessarem constantemente a estrada, uns enormes pelicanos escuros, que parecem voar em câmara lenta e até Panteras e Leopardos além de Javalis e muitas outras espécies. A reserva tem uma estreita estrada de terra que segue por entre a floresta, com mar de um lado e lagoa do outro, até uma pequena aldeia que se chama Punta Allen. São cerca de 50 Km, grande parte em mau estado. Decidi ir lá almoçar mas, na ida, fui depressa de mais pela esburacada estrada e, já no regresso, os parafusos que seguram a parte de trás do quadro desapareceram, o banco e toda a traseira da mota descaiu, e tive que reduzir drasticamente o ritmo até chegar ao alcatrão.
Nesta faixa em alcatrão os hotéis são todos de quatro e cinco estrelas com preços a rondarem os 250 dólares por noite de maneira que segui a sugestão de uma menina Colombiana que vendia gelados num bar e montei a tenda num camping que havia na praia. Ela estava lá a ficar com duas filhas pequenas. Instalei-me mesmo junto à praia, fui até ao espaço que tinham com uma mesa corrida e ligações electricas para escrever e, pelas oito e meia da noite jantei dois Tacos e uma cerveja no restaurante da praia. Perguntei a um homem que estava ao balcão com ar de gerente qual era a “password” da internet e ele, sem tirar os olhos do computador disse: “fucking tacos”. Achei que estava com um problema na cozinha e repeti a pergunta mas ele voltou a dizer, desta vez já a olhar para mim: “fucking tacos”. Era mesmo essa a Password.
A seguir ao jantar fui ter com a minha amiga Colombiana à loja de gelados. Ficámos à conversa entre dois gelados e, pelas onze da noite, dei-lhe boleia na moto para o parque de campismo. Convidou-me para tomar o pequeno almoço do dia seguinte, com ela e as filhas. Estava uma maravilha, com ovos, panquecas e fruta.
Desmontei a barraca e, pelas onze da manhã arranquei para Tulum à procura de uma oficina onde reparar a moto. Lá encontrei um concessionário da Yamaha, à falta de Honda naquela cidade, que me deixou fazer o trabalho à porta da oficina, com o empréstimo de uma ou outra ferramenta.
Arranquei depois em direcção a Mahahual através de longas rectas traçadas no meio de uma floresta cerrada, no extremo ocidental do Sian Ka’an. Pelas duas e meia da tarde, cansado por dormir na tenda, parei junto a um mini mercado rudimentar com a ideia de beber um sumo e descansar. Sentei-me num dos bancos corridos à porta. No do outro lado estava uma mulher de ar atarracado e rabo grande, dos seus quarenta e muitos anos e a sua mãe, já bem dentro dos setenta. Ás voltas em pé um sueco, dos seus trinta e poucos anos, esperava um autocarro. A mulher, curiosa, começou a fazer-me um inquérito sobre de onde eu vinha e para onde ía e, de repente, perguntou a rir: “quer casar comigo?” ao que eu respondi com a mesma rapidez: “quero”. Estávamos ali na galhofa quando a vizinha da barraca do lado veio perguntar se ela queria um “picadilho” para almoçar que ela tinha acabado de fazer. A mulher agradeceu e disse que não mas eu virei-me para a minha noiva de ocasião e disse:
-“olhe que eu até comia o “picadilho”.
Então ela, já com o ar de “quem manda lá em casa sou eu” disse:
- “Não, vamos antes almoçar à vizinha do outro lado que cozinha maravilhosamente e vende para fora”. E com isto levantou-se e entrou na barraca do outro lado que tinha, num pequeno espaço, um balcão e uma única mesa com duas cadeiras. Eu fiquei à conversa com o Sueco, que tinha fugido à neve de Estocolmo por duas semanas. Às tantas a mulher sai de dentro da barraca da vizinha e à porta pergunta-me: quer frango ou porco?
- “Frango”, respondi. E ela voltou para dentro. Passados uns cinco minutos voltou a sair e com o ar autoritário a que já me estava a habituar disse:
- “Ó homem, venha lá almoçar”. E lá fui eu, sem levantar a garimpa. O frango cozido com batatas e legumes, com um toque de piri-piri caseiro, estava uma maravilha. O sueco, meio aparvalhado mas divertido com a situação, veio sentar-se num banco do outro lado do mini restaurante. No fim a vizinha só cobrou o meu almoço, que custou o equivalente a dois euros e meio. Despedi-me de minha noiva e arranquei para Mahahual.


23 de março de 2017

Mérida


Deixei Huatulco no dia seguinte ao passeio de barco, a caminho de Mérida, que me tinham recomendado visitar. Uns 50 Km depois de arrancar entrei num vale onde se situa a vila La Ventosa. Como o nome indica o local é assolado por um vento constante de enorme intensidade. Aqui está instalado um grande parque de eólicas, com muitas centenas de ventoinhas que percorrem a paisagem de uns 20 Km de um e outro lado da estrada.
Não há pior coisa que vento forte para andar de moto. Muito pior que calor, frio ou chuva. Em linha recta a moto parecia um barco, inclinada e a abanar com as refregas. Tinha que fazer força no volante para a aguentar na estrada e no pescoço para segurar a cabeça direita. Terrível. Felizmente foi por pouco tempo. Depois entrei numa enorme serra que me levou dia e meio a atravessar e que, naquela zona, separa o Pacífico do Atlântico. Antes passei visitar o famoso canhão do Sumidero um canhão aberto na montanha pelo rio Grijalva ao longo de 35 milhões de anos, aproximadamente o mesmo tempo que levou o rio Colorado a cavar o Grand Canyon. Aqui, no Sumidero, as escarpas em alguns lugares têm mais de um quilómetro de altura. Impressionante.
A meio da serra encontrei um pequeno Hotel na vila de Boshil. A estadia custou-me o equivalente a 12,5 euros e era melhor e mais limpo do que muitos onde tenho ficado, só penalizado por um duche terrível mais uma vez a atirar água para todo o lado menos para onde devia. Ando com azar aos duches.
No dia seguinte segui serra fora através de uma paisagem de floresta exuberante numa estrada sensacional de curvas e contracurvas continuas, ao longo de mais de duzentos quilómetros. Parei já na parte plana para almoçar e, mais tarde num bar junto ao mar para beber uma cerveja. Pelo caminho encontrei um grupo de uns sete ou oito Mexicanos que viajavam em BMW’s 800. Trocámos dois dedos de conversa e arranquei antes deles. Nessa noite fiquei em Ciudad del Carmen. Quando estava a descarregar as malas à porta do Hotel chegou o grupo de mexicanos nas BMW que, por coincidência, ficaram no mesmo Hotel. Ainda os voltei a encontrar, na noite do dia seguinte, a passear pelas ruas de Mérida.
O centro de Mérida é bonito, com casas coloniais e praças com muita vegetação. Bares e restaurantes são animados por muitos turistas, a maioria vindo da estância de Cancun, a cerca de 300 Km, para aqui passar um dia ou dois. Tive azar no Hotel onde fui parar. Estava ao lado de uma “boite” cujo disc jockey parecia estar dentro do meu quarto, até às três da manhã. Quando no dia seguinte me queixei na recepção pediram-me para escrever uma nota para juntarem às muitas que já tinham de protestos. Mas o pior da noite foi ter sido atacado por umas aranhas minúsculas que me trincaram um lado da cara, a cabeça, braços e costas, deixando-me num estado lastimoso. Um creme que encontrei numa farmácia suaviza um bocado a situação mas continua dramática.
Deixei Mérida pelas três da tarde e fui ficar uns 100 Km depois, junto às sensacionais ruinas Mayas de ChienchinTze, que visitei na manhã seguinte. Esta zona é a mais turística do México, com cerca de 15 milhões de turistas a aterrarem em Cancun todos os anos. Deixei as ruinas já tarde e pensei em ficar ainda antes de Cancun mas passei apenas por pequenas aldeias que não tinham hotéis. Numa delas, já de noite, indicaram-me uma quinta onde cheguei através de uma estrada de terra. Toquei ao portão e acabou por aparecer um homem com uma criança ao colo a dizer que só estavam preparados para receberem grupos grandes com marcações. Continuei estrada fora até que alguém a quem perguntei por um Hotel sugeriu que cortasse por uma estrada secundaria a caminho de Puerto Morelos, por ser mais perto que Cancun. Entrei nesta estreita estrada deserta de longas rectas e, pelas oito da noite cheguei à pequena vila, muito mais tranquila e atractiva que a capital do turismo. Deixei a tralha num simpático Hotel onde um Mexicano me viu chegar na moto e me convidou para beber uma cerveja no bar sem paredes que dava para a rua. Acabei por ir jantar a um restaurante na rua do lado onde uma mexicana dançava Sevilhanas ao som de uma guitarra e de um desapropriado trompete, tocado por uma mulher. Animado.
No dia seguinte tinha combinado encontrar-me em Playa del Carmen com uma amiga alemã, que conheci há quatro anos no Laos e mais tarde visitei em Stutgaart. Cheguei antes dela, pelas quatro da tarde, mas já jantámos juntos.
Da parte da manhã tinha andado um pouco para trás para visitar Cancún, por curiosidade. É muito melhor do que estava à espera. A cidade é feia mas os bons Hotéis estão junto a uma fantástica praia de vários quilómetros com um mar azul turquesa.




21 de março de 2017

Huatulco 2


Quando cheguei a Huatulco um rapaz, junto ao porto, veio perguntar-me se procurava Hotel. Disse-lhe que sim, um barato e por ali. Veio então a correr à frente da moto até ao Hotel onde fiquei. Convidei-o para jantar e a seguir ainda fomos a um cabaret abaixo de cão beber uma cerveja a um euro e meio cada com direito a assistir ao striptease, embora eu pedisse a todos os santos para que a mulher não se despisse, tão inestética já era vestida.
- “E as boas não se despem”?
- “Só mais para o fim da noite. Começa com esta.”
No dia seguinte decidi embarcar para uma visita às baías, no que pensava ser um passeio de turistas. Acabou por ser uma espécie de Feira Mexicana Naval. Mal entrámos puseram música aos berros enquanto o capitão, no que me pareceu muito sensato para um Mexicano pediu:
- “Agradeço que ponham todos os coletes porque o mar está bravo e pode ser perigoso”. E quando arrancamos insistiu:
- “Atenção. Já têm todos os coletes? Agradeço que todos os ponham, incluindo as crianças. O mar está bravo. Além disso vamos agora passar em frente à capitania e podemos ser multados se alguém não tiver o colete colocado”. Aqui estava o segredo de tanto zelo pela segurança dos passageiros.
Lá pusemos todos os coletes. Só que, mal saímos do porto e entrámos em mar aberto o comandante voltou ao microfone:
- “Atenção. Já podem tirar os coletes. Já passámos a capitania. Agora é festa meus amigos. Quero ver todos contentes e animados”. E aumentou o volume da aparelhagem de som, onde berrava um Mexicano acompanhado de violas.
E lá andavam crianças de quatro e cinco anos a correrem de um lado para o outro e a pendurarem-se no varandim do catamaran sem colete algum.
Ao meu lado seguia uma família típica: Um casal dos seus sessenta e cinco anos em que o homem tinha uma barriga de um tamanho equivalente ao dobro de uma mulher grávida de nove meses. O homem, que mal conseguia andar, entrou no barco a suar em bica pelo esforço que tinha feito no trajecto dentro do Porto e, quando se sentou já não se conseguiu levantar, nem mesmo para tirar a fotografia de família a pedido do fotógrafo do barco. Este casal tinha três filhos nos seus trintas, dois deles casados e com vários filhos entre os quatro e os seis anos. Transportavam a bordo uma enorme arca congeladora que até rodas tinha e onde vinham poucos refrigerantes mas cervejas suficientes para abastecer um bar durante um fim de semana. Na primeira hora entre os três beberam uma dúzia. O mais velho via-se que se encaminhava a paços largos para conseguir o físico do pai e a mulher também não percebi se estava na eminência de ter outra criança ou se a barriga era devida aos mesmos hábitos que o marido. Estavam todos em enorme alegria e tiravam caricas, umas a seguir à outras, apenas com um isqueiro, com a habilidade natural de verdadeiros profissionais. As crianças ainda não tinham tido tempo para engordar mas já as mães lhes iam dando um ou outro golo de cerveja para se habituarem, não fossem os petizes ficar raquíticos com falta de álcool no sangue. Os pais diziam não, não, a rirem mas percebia-se que tinham enorme orgulho no hábito que os filhos estavam a adquirir. Tudo aquilo parecia um filme do Almodôvar.
Enquanto isto um outro casal, com o ar de terem saído da reserva de Índios onde eu tinha passado no dia anterior, ela com uns justos calções brancos com flores que pareciam um pijama a que tinham cortado as pernas e um top lilás, com flores de outro padrão, fazia de Kate Winslet  no Titanic, abrindo os braços rechonchudos bem alto na proa do barco, com o marido radiante por trás dela a acompanhar o gesto, em pose para o fotografo.
Pensei como iria resistir o dia todo ali fechado mas o Comandante anunciou que iriamos parar numa praia para almoçar e antes noutra baía para quem quisesse fazer “snorkeling”. Pelo caminho vimos várias tartarugas gigantes bem perto do barco e o “snorkeling” a que só sete dos cerca de quarenta a bordo aderimos, durou uma hora e foi espectacular, com peixes sensacionais de todas as cores e uns às ricas em tons de azul ou com quadriculados que nunca tinha visto. Pareciam pintados para a ocasião.

Na paragem para almoço, de duas horas, o patriarca da família de gordos foi içado pelos filhos em peso para dentro do bote e, já em terra, de ali para a mesa do restaurante na praia. Como não se consciencializam do incómodo que é.
Na volta ainda vimos uma baleia, a uns 150 metros, que soprou o seu repuxo e mergulhou, atirando a enorme barbatana fora de água antes de mergulhar para as profundezas do oceano.




19 de março de 2017

Huatulco


Quando deixei Oaxaca novamente em direcção ao Pacífico, para visitar uma famosa zona onde há sete baías umas a seguir às outras, o António Braga explicou-me que às tantas deveria abandonar a estrada principal, sensivelmente a meio da serra, para apanhar uma estrada em bom estado que me faria cortar cerca de 80 Km ao trajecto.
Há uns dias, quando rodava a cerca de 120 Km/h numa estrada de província voltei a não ver uma das muitas lombas de velocidade que este país tem. Bati com força com a roda da frente na lomba, a suspensão bateu no fundo, a moto deu um salto e o retentor do amortecedor esquerdo rebentou, o que já não me acontecia desde as esburacadas estradas do Norte da Índia e da Birmânia. O que me valeu agora é que o direito aguentou o golpe e por isso, mesmo só com um amortecedor à frente, a moto continua a curvar bastante bem. Isto a propósito das fabulosas estradas de montanha que tenho apanhado no México, que são um grande contraste com a pasmaceira das estradas através das planícies dos Estados Unidos e me têm dado imenso gozo. Nesta que segue de Oaxaca para Sul estava divertidíssimo a fazer trabalhar o pneu traseiro até ao limite embora com a frente a perder um pouco de aderência, por só um dos amortecedores funcionar.
Até que ... virei à esquerda no que pensei fosse a estrada indicada pelo António. Os primeiros quatro ou cinco quilómetros eram de uma estrada alcatroada em bom piso mas depois entrei numa parte de terra. Pensei em voltar para trás mas achei que seria apenas uma zona de obras e que rapidamente voltaria o alcatrão de maneira que continuei, serra abaixo, com a estrada a ser cada vez mais inclinada. À medida que ia andando e a estrada piorando pensava sempre que aquilo deveria estar a acabar e lá continuava. Às tantas encontrei um grupo de rapazes, Índios. Perguntei a um se a estrada iria melhorar ali à frente e ele respondeu que eu não poderia ali passar porque precisava de Passaporte. Estranhei a ideia porque estava longe da fronteira com a Guatemala.
- E se voltar para trás?
- Também precisa de Passaporte.
Ignorei o rapaz e continuei por ali abaixo. A estrada ficou tão inclinada e em algumas partes com muita areia solta de tal forma que já não poderia voltar para trás pois a moto não teria qualquer hipótese de subir aquilo, com o peso que carrego. E a descer estive várias vezes a sentir que estava muito próximo de ir ao chão. Cheguei a uma aldeia de Índios no meio da serra. Eles tinham cimentado a parte da estrada que atravessava a aldeia, com rasgos no cimento para se ter alguma tracção naquelas inclinações que desciam as montanhas praticamente a pique. Doíam-me os ouvidos de baixar de altitude tão rapidamente. Voltei a perguntar se havia alcatrão perto. Disseram-me que a cinco quilómetros e passados os cinco outros disseram-me que seriam mais sete. Parecia um inferno sem fim. Concentrava-me para não cair a pensar que poderia partir alguma peça que não me deixasse sair dali. Estes Índios que vivem fora das cidades mal percebem espanhol e têm o ar de não estar contentes por eu andar por ali no que parece considerarem território deles, mas não tenho outra hipótese senão continuar a descer por estradas cada vez mais esburacadas e difíceis. Passaram vinte e cinco quilómetros daquele inferno que pareceram cem e duraram uma boa hora. Finalmente alcatrão. Um grupo de militares estava junto à saída da estrada de terra. Mandaram-me parar. Queriam saber porque estava ali. Contei-lhes que estava perdido, perguntei como poderia seguir para a costa e deixaram-me partir sem mais conversa.


17 de março de 2017

Oaxaca


Quando cheguei à ultima portagem daquela original estrada de via única em cada sentido, vi, ao longe, uma multidão junto às cabines. Já perto percebi que era uma manifestação de Índios que tinha exigido a abertura das portagens, estando eles a cobrar “ajudas financeiras” numa caixa de lata a quem passava. Do outro lado das cabines estavam dois carros da polícia, simplesmente a observarem a operação.
Quando cheguei a Oaxaca, a casa de um amigo, perguntei o que era aquilo. Contaram-me que são algumas tribos que decidem facturar qualquer coisa com aquela técnica e o governo local autoriza a operação, praticada uma ou duas vezes por semana, desde que não abusem.
O governo tem cedido a algumas reclamações dos Índios para compensar os que mandam matar quando consideram que estão a ganhar poder fora do controlo deles.
Oaxaca era uma cidade calma até 2006. Na altura houve muitos americanos e canadianos, principalmente reformados, que aqui compraram casa para viverem com um bom clima e um custo de vida muito inferior ao dos seus países. Nesse ano, uma série de conflitos na cidade geraram uma guerra civil muito localizada, na disputa pelo poder local. O Governo central deixou a revolta decorrer durante seis meses, por o Governo local ser da oposição. Depois acabaram por mandar militares acabar com a confusão. Morreram cerca de cem pessoas e conta-me o meu amigo que na altura só podiam ir à cidade de bicicleta e recolhiam a casa às cinco da tarde, muitas das vezes passando a noite ao som de tiros. Os estrangeiros voltaram todos para os seus países e só passados dois ou três anos recomeçou, aos poucos, o movimento turístico. Mas ainda há muita tensão no ar. Uma tribo ocupa a fachada do Palácio Governamental, na praça central da cidade com uma venda dos seus produtos e cartazes a pedir justiça pela morte de dois activistas, há seis anos atrás.
Há três meses, o grupo que perdeu as eleições para a reitoria da Universidade de Direito, ocupou as instalações, partiram pedras da fachada do prédio histórico para atirarem aos contramanifestantes e acabaram por pegar fogo à Universidade, que não voltou a abrir.
Quando passeava pela praça principal da cidade num Domingo, com o meu amigo, um rapaz veio contra mim de propósito dando-me um encontrão e querendo arranjar conflito, perguntando se eu estava a provocar um Mexicano. Não lhe respondemos e continuámos o nosso caminho.
Conheci o António Braga aqui, apresentado por um amigo comum. O homem nasceu em Portugal mas veio para o Brasil em criança e mais tarde para o México onde acabou por se naturalizar. Tem oitenta anos e há muitos que viaja de moto pelo continente. Antes utilizou uma BMW e uma Harley na qual fez mais de 200.000Km mas ainda o ano passado, já octogenário, pegou na sua pequena moto de 200 c,c. e foi até ao Brasil, visitar a namorada. Extraordinário
Passamos por um poste onde está uma bicicleta pendurada, pintada de branco.
-O que representa aquilo?
-Foi um ciclista que foi assassinado ali. Aqui mata-se muito, diz-me. Principalmente políticos e juízes. São profissões de risco. Um vizinho do António, “dealer” milionário, fugiu há dois anos da prisão, fardado de polícia. Matou a tiro o juiz que o condenou e ficou tranquilamente pela cidade, só voltando a ser preso quando mudou o chefe da polícia. Certamente não lhe pagou o que ele queria, diz-me o António.
Em Oaxaca passeámos pelo centro da cidade e visitámos as ruinas do Monte Albán, com mais de dois mil e quinhentos anos. Á semelhança das de Tehuantepec percebe-se que as tribos que se instalaram neste território há milhares de anos atrás eram muito desenvolvidas para a época embora ainda não saibam explicar o significado ou utilidade de muitas das construções que foram encontrando nos últimos dois séculos.
Assistimos ainda a parte de um treino de Pelota Mixteca, um jogo tradicional que se pratica há muitas centenas de anos.



13 de março de 2017

Puebla


Em San Miguel de Allende deitei-me mais tarde que o costume, à uma da manhã. Acordei sobressaltado com o disparo de fogo de artifício. Olhei para o relógio e eram seis da manhã. Como foi só um foguete tentei voltar a dormir mas a cada cinco minutos disparavam outro. E assim continuou até cerca das oito. Pus a almofada por cima da cabeça e, habituado ao som dos disparos, lá consegui dormir mais um bocado, às prestações.  Quando finalmente me levantei soube o que se passava: Havia um festival Índio onde muitos dos elementos da tribo Otomi se vestiram com roupas tradicionais, algumas de guerreiros, e dançaram no Zócalo, como os Mexicanos chamam às praças principais das cidades, ao som de tambores. Esqueci o sono e fui ver o sensacional espectáculo, principalmente pelos trajes. No dia anterior já tinha dado uma volta pela cidade e naquela manhã, depois de fotografar e filmar as danças, acabei por dar mais um passeio antes de partir em direcção a Puebla.
Puebla já é uma cidade grande, com muito movimento e arredores pouco interessantes. Instalei-me num Hotel perto do centro e, durante a manhã, voltei a fazer turismo. Já tinha constatado que as Catedrais no Mexico são maiores e mais espampanantes que as existentes na Europa e depois de conversar com várias pessoas percebi a razão para tal. Quando os espanhóis conquistaram o país quiseram converter os Indios ao Cristianismo e, para tal, não só destruíram muitos dos seus locais de culto como construíram catedrais fabulosas muitas delas nesses mesmos locais e até utilizando parte das pedras desses templos. A técnica para os converter passou por fazerem obras fabulosas em dimensão e riqueza que impressionam qualquer um, mesmo nos dias de hoje. Daí estas catedrais extraordinárias, como a de Puebla que visitei nesse dia. Um Mexicano que conheci uns dias depois contou-me que muitos dos Índios, obrigados a adorar um cristo em que não acreditavam tinham crucifixos ocos onde colocavam artefactos e relíquias referentes aos seus deuses assim fingindo que rezavam a Santos católicos quando, na realidade, o faziam aos Deuses em quem tinham fé.
Visitei ainda um interessante museu que tinha não só pinturas de autores locais dos séculos XVII e XVIII como simples máquinas da segunda metade do século XIX e inícios do século XX.
Da parte da tarde parti para Oaxaca, primeiro através de uma auto estrada e depois, na maior parte do percurso, um tipo de estrada que não tinha visto em mais parte nenhuma do mundo. A estrada em si não tinha nada de extraordinário pois era com bom piso de faixa única em cada sentido, a maior parte através de uma serra. O que era extraordinário é que tinha portagens, como se fosse uma auto estrada.
Antes de entrar nesta estrada vi uma barraca feita muito rudimentarmente com panos brancos na borda da autoestrada e duas mulheres a cozinharem debaixo daquele toldo. Havia uma única mesa onde estavam três camionistas, com os respectivos camiões parados na beira da auto estrada. Resolvi parar para também almoçar e sentei-me à mesa com eles. Tinham ar de Indios, grandes. Os três tinham pulseiras em prata com um bom par de centímetros de largura e chapas com algum escrito mas o que estava sentado à minha frente exibia ainda um enorme crucifixo preso a uma grossa corrente de prata por fora da T shirt em que a cruz era em azul forte e a imagem num dourado brilhante. Era até assustador de tão original. Não deram grande conversa mas o almoço de carne picada com tomate, pimento recheado com queijo e arroz estava excelente e, acompanhado de uma Coca Cola, custou o equivalente a três euros, gorjeta incluída.