1 de setembro de 2016

Kobe


Quando, naquela noite, saí do Hotel para jantar a filha do dono, que falava inglês, ao ver-me na moto, disse-me que estavam à espera de um tufão para o dia seguinte.
- Para que altura do dia?
- Acho que é só a partir da tarde.
- Boa.
No dia seguinte saí mais cedo que o costume, não fosse o tufão antecipar-se.
Ás nove da manhã estava na estrada mas demorei quase duas horas a percorrer os primeiros 80 Km em estradas secundárias. Ao longe comecei a ver nuvens pretas como nunca tinha visto e os primeiros pingos do que se anunciava bateram-me na viseira.
Finalmente apanhava a autoestrada e, a menos de 160 Km/h, para não abusar da paciência da polícia, segui em direção ao Sul. Só parei quando me vi longe do tufão, que se aproximava e se abateu com força sobre a região de Tokyo. Tinha escapado por pouco. Se não me tivessem pedido para regressar ao sul um dia antes ...
Fiz perto de 600 Km em auto estradas naquele dia e, no fim, tiraram-me uma conta de perto de 100 euros em portagens. Bem mais que em gasolina.
Nas áreas de serviço em que parei voltei a encontrar alguns grupos de Harleys, que se arrastam a 90 Km/h pelas auto estradas, provavelmente para não ficarem com pés e mãos dormentes com as vibrações. Os proprietários de Harleys, em qualquer parte do mundo, fazem uma espécie de grupo à parte, e gostam de dar um ar de durões, mas aqui no Japão parece não bater a bota com a perdigota e, embora alguns disfarcem, outros não resistem em ser simpáticos, fazendo pequenos acenos com a cabeça, sem que os colegas vejam. Está-lhes no sangue.
Numa das paragens que fiz estava no parque de estacionamento um velho da minha idade, junto a um imponente Lexus branco, a fazer “swings” de golf no ar enquanto esperava pela mulher e filha. Achei graça, virei-me para ele e fiz também um “swing”. O homem riu-se e veio ter comigo.
-“What handicap are you”? disse-me ele com boa pronúncia.
-“14”
-“Ha, ha. I knew it by your swing. I’m 36”.
Já tinha estado em Portugal e o que mais o marcou foi o Cabo da Roca. Os japoneses ficam fascinados com a ideia de irem ao ponto mais Ocidental da Europa e visitam o local aos milhares. Se pusessem lá uma estátua do Budha então era o delírio.
Cheguei a Kobe por volta das cinco da tarde e, antes de ir para o Hotel, ainda passei no concessionário onde tinha combinado deixar a moto na manhã seguinte, para ser encaixotada, anunciar que já estava na cidade. Não valia a pena telefonar ou mandar um mail porque ali ninguém fala ou percebe uma palavra de Inglês.
Antes do jantar ainda dei uma volta a pé pelo centro e, como a loja da Levi’s estava em saldo, resolvi comprar uns Jeans. A menina, muito simpática e divertida, não tinha as calças com a altura certa de pernas para mim mas disse-me:
- Não há problema, faço-lhe a bainha em cinco minutos.
- Em cinco minutos? não é possível.
- Quer apostar? Conte.
- Levou as calças e três minutos depois trouxe-as com a bainha feita, com costura igual à de origem. Um bom exemplo dos japoneses a trabalharem.
Quem não está habituado a ouvir: “a costureira só cá vem na quarta. O melhor é passar a buscar para a semana”?
Gostei muito mais do Japão do que estava à espera. Não só pelas paisagens de cortar o fôlego como pelas cidades mas, principalmente, pelas pessoas.
A próxima etapa serão os Estados Unidos, em Outubro.

31 de agosto de 2016

Kuki


Quando acordei na manhã seguinte estava a chover forte. Hesitei em sair mas ao acalmar o tempo arranquei para ver umas cascatas perto da estalagem.
Voltou a chover com mais intensidade e, quando deixei as cascatas, já com as calças ensopadas, regressei à estalagem para trocá-las pelas impermeáveis do fato que não tenho usado aqui por as temperaturas andarem sempre à volta dos 35º.
Parti depois visitar o “Shrine” de Nikko, sem duvida o mais espetacular e interessante que encontrei no Japão, até por parecer mais original e conservado que outros. Os Shrine são locais de culto da religião Shinto, que acredita haver deuses tanto no céu como na terra enquanto os “Temple” pertencem à religião Budista, a seguida pela maioria dos japoneses.
Numa das salas, para onde tivemos que entrar descalços, os visitantes eram divididos em pequenos grupos e depois um monge mostrava o eco provocado por dois paus a baterem um contra o outro. Primeiro em várias partes da sala, em que não havia qualquer eco e depois ele chamava a atenção para quando batia os paus por baixo de um enorme dragão pintado no teto da sala. Aí o eco produzia uma vibração que podia parecer o rosnar de um animal. O grupo de japoneses disse “HOOOOOO”! em uníssono e a miúda que estava ao meu lado, emocionada, ficou com os olhos molhados e deixou cair uma lágrima pela cara, que limpou com a mão. Depois cada um deles, por recomendação do monge, juntou as mãos e pediu um desejo de frente para a estátua correspondente ao seu signo chinês.
- o senhor, que signo chinês é?
- Não faço ideia.
E rapidamente rapou de uma tabela com os anos.
- Em que ano nasceu?
- 1955
- Então é cabra. É aquela segunda estátua do lado de lá.
- Obrigado.
Tinha previsto, depois da visita a Nikko, seguir calmamente de volta a Kobe ao longo de três dias, para entregar a moto a fim de ser embarcada para os Estados Unidos. A entrega teve que ser adiantada 24 horas por motivos alfandegários e por isso tinha só aquela tarde e o dia seguinte para percorrer os  800 Km. Nessa tarde arranquei em direção a sul, ainda debaixo de chuva, com a ideia de fazer cerca de 200 Km até perto de Tóquio para no dia seguinte percorrer o trajeto que me faltava, maioritariamente em autoestrada, a única forma de lá chegar a tempo.
Passados pouco mais de 50 Km deixou de chover mas perdi-me na estrada e fui parar a uma que, estranhamente, não tinha transito. Pouco depois percebi porquê. Um sinal indicava que me deveria afastar daquela zona. Estava próximo da zona de proteção que decretaram como possível de ter sido afectada por radiações provenientes do desastre de Fukushima, quando, em 2011, um tremor de terra seguido de tsunami, destruiu a central nuclear local.
Dei meia volta e acabei por encontrar a estrada principal.
Normalmente não se vêm muitas motos a circular no Japão, o que é estranho para o principal país que as produz. Pequenas 125c.c, por exemplo, praticamente não existem quando na Indonésia, a fabrica da Honda local, produz e vende cinco milhões por ano do veiculo a motor mais vendido no mundo desde sempre.
As motos grandes que aqui vemos são quase todas ou antigas, vi uma boa dúzia de Kawasaki 900 da primeira geração, ou Harleys e algumas BMW. É a tal ideia de que a galinha do vizinho é melhor que a nossa quando, na realidade, eles produzem as melhores “galinhas” do mundo.
Mas vinha eu numa via rápida, das muito poucas que encontrei, embora com semáforos a cada 500 metros, quando parou ao meu lado uma Kawasaki Ninja 1200R. Fomos os dois “picados” entre os vários sinais seguintes mas constatei que, mesmo naquelas distancias curtas entre sinais, estávamos a ultrapassar os 200 Km/h quando me tinham dito que as motos vendidas no Japão tinham um limitador aos 180 Km/h.
Passado um pouco parámos os dois a beber um café e ele cotou-me que a sua moto tinha “full power”.
- Mas como é possível? Disseram-me que as motos aqui estavam limitadas a 120 cv. e 180 Km/h de velocidade máxima.
- Pois. Por isso importei-a da Malásia.
O Japonês, dos poucos que ouvi falarem inglês, tinha estudado no Texas. Indicou-me um caminho mais curto para evitar a entrada em Tokyo e seguimos cada um para seu lado.
Já de noite voltei a perder-me e, quando dei por mim, tinha feito 50 Km em sentido contrário.
Encontrei um pequeno hotel, já passava das oito, na cidade de Kuki, junto à linha de comboio. Preparava-me para tomar um duche quando senti novamente o chão a tremer. Será outro tremor de terra? Mas não. Cada vez que passava um comboio de alta velocidade o Hotel abanava todo. Foi uma espécie de embalo para adormecer.

30 de agosto de 2016

Nikko


No Segundo dia que passei em Tokyo já não chovia. Tinha decidido ir assistir a uma luta de Sumo e nesta altura do ano os lutadores profissionais só treinam entre as 7,30 e as 10,30 da manhã. Levantei-me cedo e saí do Hotel às oito mas decidi ir de metro, para mão me perder, até porque o local era muito perto de uma estação. O metro à hora de ponta em Tokyo não é o caos que fazem dele. Há obviamente muita gente a circular, até porque os japoneses usam muito os transportes públicos. Só que os metro têm mais carruagens que qualquer outro que vi até agora, a preencherem plataformas com mais de 200 metros de comprimento, de maneira que vão cheios mas ninguém se atropela.
As lutas de Sumo são um espetáculo fascinante. Cada luta dura poucos segundos, com os enormes e pesados lutadores a fazerem um show de preparação em que se põem de cócoras e depois arrancam um contra o outro com uma força brutal. Ganha quem atirar o outro ao chão ou o conseguir empurrar para fora do espaço estabelecido. Eles são grandes e gordos mas também fortes.
O que tem graça é ver os miúdos, futuros lutadores, a verem os profissionais porque a maioria, tal como 99% dos japoneses, não são nada gordos e, estando ali, a estudarem para serem profissionais de Sumo, sabem que têm que engordar, e muito. O Sumo tem também um pormenor que não se vê em qualquer outro desporto. O vencedor não mostra uma grande felicidade nem faz espalhafato nenhum quando ganha, para mostrar respeito pelo vencido. Além disso consideram que o importante aqui não é vencer mas o esforço que se faz para tentar vencer. Típico japonês.
Depois de assistir ao treino de Sumo fui ainda visitar um parque fantástico. O
“Shinjuku Gyoen National Garden” parece não ter sido construído como um jardim no meio da cidade, transmitindo antes a ideia que a maioria das árvores e plantas são uma floresta que já lá estava antes da cidade crescer e ali foi mantida. Árvores seculares, lagos e espaços com vários tipos de jardins, desde o inglês ao francês, passando obviamente pelo japonês, tornam aquele parque muito especial.
Deixei Tokyo por volta da uma da tarde e parti em direção a Nikko, cerca de 170 Km a Norte da capital.
A viagem decorreu sem sobressaltos mas quando ia a chegar a Nikko às tantas vi um polícia numa scooter à minha frente e reduzi drasticamente a velocidade, para não o ultrapassar, com medo de infringir os limites de velocidade que, em muitas vilas e cidades, estão marcados no chão com um 40. Mas o homem ia tão devagar que decidi passa-lo. Quando chagámos ao semáforo seguinte ele parou atrás de mim e, pelo retrovisor vi-o tirar uma caneta de uma bolsa e escrever a matricula da minha moto nas costas da mão. Deve ter gerado uma confusão naquela esquadra.
Fui parar a uma estalagem familiar, no meio da floresta. O dono, um enorme Nigeriano a falar um inglês perfeito, era casado com uma japonesa e tinham quatro filhos pequenos. A estalagem tinha ar de anos sessenta. Uma enorme sala, com um pé direito de sete ou oito metros, servia também de casa de jantar. Junto corria um riacho com forte e barulhenta corrente mas que mal se via por entre a densa vegetação. O homem propôs fazer jantar o que me evitou pegar na moto de noite para ir à pequena vila procurar um restaurante que provavelmente fecharia às oito e meia da noite. Fez uma fantástica galinha com um óptimo molho, acompanhada de batatas cozidas em vez de arroz, a meu pedido e de um casal de italianos que eram os dois outros únicos hóspedes, fartos que estávamos todos de comer arroz.
Depois do jantar os italianos foram-se deitar assim como a japonesa e as crianças e o Nigeriano trouxe uma garrafa de aguardente de batata e ficámos à conversa. Ele estava nacionalizado inglês, tinha sido Marine e combatido nas Faulkland, pouco, dizia ele. Depois voltou à Nigeria onde foi militar de alta patente. Contou as extraordinárias histórias de corrupção e roubo que se passam com os governos e militares africanos. Despediu-se da tropa a abriu um bar no Hawai, onde conheceu esta japonesa.
Estávamos nesta conversa pelas dez e meia da noite quando o chão começou a tremer forte e as janelas a abanarem como só me lembrava de ter assistido uma noite em Portugal, teria eu uns 13 anos.
- O que é isto?
- Um tremor de terra, disse ele calmamente.
Durou uns 30 segundos.
- Mas isto é usual?
- Muito não mas de vez em quando acontece.
- Felizmente não foi dos grandes, disse eu.
- Pode ter sido grande noutro local do país.
No dia seguinte vi que foi ali perto e que atingiu 5.3 na escala de Richter, sendo dos maiores do ano.  Durante a noite, felizmente, não houve réplicas.

28 de agosto de 2016

Tokyo


Tokyo é lindo. Não estava à espera. Nos filmes vemos uma confusão enorme de gente a atropelar-se, sem espaço para se mexerem. A realidade é completamente diferente. A cidade estende-se por muitos quilómetros quadrados e, no centro, tem avenidas largas e vários parques e jardins fabulosos a criarem enormes espaços verdes. Vê-se que é uma cidade relativamente recente e bem planeada.
Instalei-me no Hotel e saí pelas nove da noite para jantar. Mesmo nas cidades onde há muitos turistas, como Tókyo, e por isso restaurantes de todas as nacionalidades, tenho preferido ir aos restaurantes dos locais, normalmente só frequentados por japoneses, onde janto por dez ou onze euros. Fui ao primeiro que encontrei, perto do Hotel. Tinha um sistema que já tinha visto antes em Kyoto. O cliente começa por se dirigir a uma máquina onde escolhe o jantar e a bebida, através de fotografias e botões e paga. Dirige-se então à mesa ou balcão e entrega os talões a um dos empregados. Como nunca há gorjetas é um sistema prático. As refeições já estão meio cozinhadas e normalmente não demoram mais de cinco minutos a vir. Os japoneses não perdem tempo com nada. Aqui até tinham uma máquina para tirar a cerveja onde a menina punha a caneca e a máquina inclinava-a e servia na quantidade certa, endireitando antes de acabar para ficar com a espuma correta.
Quando se está acompanhado não são nada atrativos estes sistemas mas para quem está só é muito prático.
No dia seguinte fiquei de manhã a tratar de mails e escrever e saí do Hotel ao meio dia e meia de capacete na mão mas, quando cheguei cá fora o céu ameaçava chuva forte e voltei lá dentro deixar o capacete e pedir um guarda chuva. Quando voltei a sair chovia muito e tive que esperar um quarto de hora para ir até à estação de metro mais próxima, ainda debaixo de chuva mas mais fraca.
Em Tokyo tinha ideia de não visitar Templos e museus, que já tinha visto em cidades mais antigas e decidi antes ver coisas únicas daquela cidade.
Por sugestão da “Time” americana comecei por subir ao segundo andar do Starbucks café de Shibuya Crossing, que na pratica é um primeiro andar porque eles aqui não contam o R/C ou 0 a que chamam 1º. De aí temos vista para um dos cruzamentos mais movimentados de Tokyo, que quis filmar. A curiosidade é que neste cruzamento, às tantas, os sinais luminosos ficam encarnados para todas as cinco entradas de carros e os dos peões verdes pois para além das passadeiras que existem na entrada de cada uma das ruas há uma outra maior que atravessa todo o cruzamento em diagonal, razão pela qual os carros deixam de passar e um enxame de gente apressada invade a estrada. Espetacular visto de cima.
Ao meu lado no balcão do Starbucks, virado para a enorme janela, estava uma americana de Nova Iorque, de origem chinesa, dos seus quarenta e muitos, cinquenta anos, com uma Canon fantástica, que achou que eu tinha cara de milionário. Meteu conversa a propósito das fotografias e quis mostrar-me que estava a tentar focar chapéus de chuva encarnados.
-Olhe este que eu apanhei há bocado, não é espetacular?
-Usa uma Go pro? Que engraçado. Pensei em comprar uma.
Conversa puxa conversa e passado um bocado perguntou-me:
- Você é alemão ou suíço?
Quando lhe disse que era português a atitude dela mudou radicalmente. Consciencializou-se que eu era um pobre e quando a filha, uma miúda dos seus 25 anos, com ar vivo e esperto entretanto apareceu, despachou-me para ela, como quem se vê livre da raia miúda.
-Olhe, este senhor anda a dar a volta ao mundo de moto. Muito interessante. Tipo, fale lá com ele. Dei dois dedos de conversa à miúda e arranquei, à procura do bairro Ebisu, ali perto, que tinha lido ter bons restaurantes locais.
Quando cheguei a Tokyo pensei que as pessoas aqui não poderiam ter a mesma simpatia das da província porque é assim em todo o mundo. Estão mais stressadas, sei lá. Achei normal por isso quando, ao entrar na cidade, um dos chauffeurs de táxi a quem perguntei uma indicação, numa fila para os sinais luminosos, olhar para mim e fazer-me sinal que não, sem sequer abrir a janela. Também um miúdo nos seus vinte anos, naquela manhã ia pelo passeio a ouvir auscultadores abanou a cabeça e seguiu o seu caminho quando lhe fiz uma pergunta.
Mas depois, ao sair do Starbucks, perguntei a um trabalhador de fato de macaco e capacete plástico na cabeça onde era o bairro Ebisu e ele disse-me muito amavelmente, venha cá que lhe mostro e subiu uma enorme escadaria por onde eu teria que passar mas ele não, só para me explicar melhor o caminho que eu teria que tomar.
Depois, a seguir ao almoço um casal nos seus quarenta anos a quem perguntei como se ia para um parque que queria visitar disse-me: venha connosco que vamos nessa direção e acabaram por me oferecer um café pelo caminho.
Quando entrei no parque também dois miúdos que por ali passeavam, ela com 18 anos e ele com 20, quando lhes perguntei onde era uma parte do parque que gostava de ver, ele procurou no telemóvel e ela disse: “venha, nós vamos consigo”. Eram giros, os miúdos. Passeámos juntos durante cerca de duas horas e de cada vez que eu lhes dizia para não se prenderem comigo eles insistiam. “Não, não. Nós queremos ir consigo”. Falavam inglês e estavam a estudar alemão na universidade. Muito simpáticos. No final da tarde acompanharam-me até à estação de metro e despedimo-nos.
São atitudes que dificilmente vemos na capital de outro país e que evidenciam uma cultura e maneira de estar muito particular desta gente. Fascinante.

26 de agosto de 2016

Kakegawa


Ao fim do dia cheguei à cidade de Kakegawa onde procurei um Hotel. Encontrei um de uma cadeia “Smile” que achei graça porque o emblema era mesmo um desses “smile” como os do facebook. Só deixei de rir quando cheguei ao quarto que tinha a alcatifa toda suja e um aspecto bastante desolador, mas não quis procurar outro com medo de não encontrar alternativa. De qualquer forma foi mais barato que o costume e, tal como me dizia um professor em Inglaterra, “you pay for what you get”.
Pelas nove da noite saí à procura de um restaurante onde jantar. À esquina encontrei um único onde duas simpáticas e giras miúdas pareciam esperar o primeiro cliente da noite. Pedi a ementa e um Biru (cerveja) mas a partir daí a comunicação foi mais difícil. Elas não falavam uma palavra de inglês e o menu, sendo numa cidade de província onde não há turistas, estava todo em Japonês e não tinha fotografias, como muitas vezes têm. Nem sequer havia outros clientes para eu poder escolher através do que tinham pedido e apontar para o prato deles. Estivemos uns bons minutos a rir os três com a situação até que uma delas se lembrou de procurar fotografias de pratos na internet. E assim escolhi o que queria através das fotografias no telemóvel da rapariga. Original
E já que não havia mais clientes elas sentaram-se na mesa ao lado da minha também a jantarem. Muito engraçado.
Já só estava a duzentos e poucos quilómetros de Tokyo de maneira que marquei pela internet Hotel para os dois dias seguintes na capital e fiz-me à estrada.
A zona que passa junto ao monte Fugi é linda, primeiro com uma estrada no topo da montanha com vista para o famoso monte, com o glaciar no topo, de um lado e um lago em baixo do vale do outro. Infelizmente o céu nublado do dia não me permitiu ver o Fugi mas a vista para o lago lá de cima é espetacular. Além disso, a estrada que desce até ao lago e sobe a montanha do outro lado é linda, com uma vegetação muito densa e grande variedade de árvores. O transito é que estava praticamente parado com o que parecia ser um passeio típico para as gentes de Tokyo. Lá fui eu pela faixa contrária a passar o traço contínuo, sempre que a segurança o permitia.
Ao entrar em Tokyo decidi fazer um filme com a Go pro no capacete porque é sempre engraçado a conversa que tenho com as pessoas a perguntar caminhos, comigo a falar inglês e eles a responderem invariavelmente em japonês mas, como a conversa é acompanhada por gestos, lá nos vamos entendendo. Neste caso era para encontrar o caminho para o Hotel. Ainda não vi o filme de mais de uma hora mas deve estar giro. Principalmente porque, já no final, passei uma fila de carros que estava parada no sinal luminoso para virar para a rua do Hotel e parei à frente deles. Quando arranquei estava uma mulher polícia ao lado de um alto motão, creio que uma Honda 750, a mandar-me parar. Era uma miúda giríssima, mesmo, que não teria mais de 25 anos. Fiquei embasbacado a olhar para ela, fardada e de capacete na cabeça com um enorme emblema dourado na frente. Sexy. Mas fiz um sorriso e disse-lhe que tinha toda a razão em mandar-me parar. O que vale é que ela também achou graça e falava inglês, para minha surpresa. Disse-me que eu tinha cometido uma infracção e pediu-me a carta japonesa.
-Não tenho
-Não tem?? Como??
-Não. Só tenho portuguesa.
-Não pode ser. E o que faz aqui?
-Sou turista.
-Turista, de moto?
-Sim. Tem matricula portuguesa
-Como é possível?
E para não complicar mais a conversa mudei o tema.
-Ajude-me lá. Sabe onde fica o Richmond Hotel? Disseram-me que era nesta rua.
- Sim. É ali em cima.
-Depois do cruzamento?
- Sim, no segundo sinal luminoso.
-Ah, óptimo. Muito obrigado
E resolvi a questão com mais um sorriso simpático. Apetecia-me dar-lhe um beijo mas achei que me levaria preso e desisti da ideia.

25 de agosto de 2016

Hamaoka - Honshu




Arranquei de Minakuchi por volta das dez e meia, como é meu costume. Não tenho mapa do Japão porque os nomes vêm todos em japonês e por isso serve-me de pouco. Costumo por isso ver na noite anterior no “google maps” o trajeto que pretendo fazer e escrevo num papel as cidades por onde tenho que passar, assim como os números das estrada a seguir. Uns e outros costumam estar escritos nos sinais de trânsito, também em Inglês.
Neste caso, a caminho de Tóquio, não havia muito que saber, porque teria simplesmente que seguir a estrada nacional nº1 que raramente tem mais que uma faixa para cada lado, de maneira que tenho feito pouco mais de 200 Km por dia.
Neste dia aconteceu uma cena caricata. Por vezes nestas estradas aparecem cruzamentos, assinalados, em que a estrada segue para a esquerda ou direita e não em frente. Tenho que ir com uma certa atenção para não me enganar.
Desta vez distrai-me e fui em frente em vez de virar à esquerda. Comecei a achar estranho a estrada estar a tornar-se estreita de mais para uma nacional 1 e o movimento baixar drasticamente. Achei que me tinha enganado mas decidi andar mais um pouco para ter a certeza. Até que... entrei pelas instalações de uma central nuclear. O portão era largo e estava aberto de maneira que nem reparei que existia. Ouvi uma voz num altifalante que até parecia em português a dizer : Onde vai?. Se calhar é parecido em japonês, como algumas outras palavras, mas achei que não era para mim.
Continuei por ali dentro até começar a ver mais porta paletes e camions na estrada que carros. Constatei que me tinha enganado e dei a volta só então percebendo que aquilo era uma central nuclear. Fiquei chocado com o que vi e tirei duas ou três fotografias, felizmente desta vez sem ser preso, como me aconteceu no Irão. No portão estava um homem à minha espera que me mandou sair com ar de mau e sem qualquer ameaça de vénia.
O que me chocou foi o estado lastimável em que se encontrava a Central Nuclear, com tubos e depósitos cheios de ferrugem.
O que se passa é que depois do desastre de Fukushima, em 2011, o governo japonês prometeu fechar todas as centrais nucleares no país. Só que é mais fácil dizer do que fazer. 30% do fornecimento de eletricidade no país estava baseado nas Centrais Nucleares e para acabar com elas tinham ou que ter barragens e outra produção limpa de energia em quantidade suficiente, o que não é o caso, ou passarem a produzir eletricidade queimando combustível, o que iria contra todos os recentes acordos internacionais a nível de poluição ambiental. Penso que sejam esses os motivos pelos quais eles mantêm uma ou outra central nuclear em funcionamento, enquanto não tiverem uma alternativa viável. O problema é que, como esta, muitas estarão em péssimo estado e não as podem renovar pois se as desmontam já não faz sentido construir novas, depois de anunciarem que as iriam eliminar. Assim vão mantendo alguns destes monos em funcionamento. Esta, pelo que li depois de lá passar, estará desativada mas continua com muito movimento pois não deve ser fácil verem-se livres dos materiais radioativos quando decidem acabar com elas.
O problema é que o país tem tremores de terra fortes a cada 5 anos e, se o de 2011 provocou aquele desastre, pelo tsunami que veio atrás, estou convencido que se calha terem um com o centro num sítio como esta central nuclear de Hamaoka aquilo desmancha-se tudo. Pelo menos é a ideia que dá ao olharmos para ela e aprendi  que uma coisa para estar em bom estado tem que, em primeiro lugar, aparentar estar em bom estado.
Neste dia passei ainda por um simpático casal, cada um na sua Harley. Quando passei por eles disse-lhes adeus e o rapaz para me corresponder o aceno quase se estampou. Parei mais à frente numa loja para comprar água e eles viram-me e também pararam. A miúda andava de moto há um ano e ele, pelo que vi, devia andar há um ano e dois dias. Bom espírito.

23 de agosto de 2016

Minakuchi - Honshu - Japan


Em Kyoto comecei por visitar Gion, o tal bairro das Gueixas. Ás vezes encontram-se na rua, todas produzidas mas, como não vi nenhuma, pedi a duas meninas vestidas com trajes tradicionais para tirarem uma fotografia ao pé da moto.
- “Não são verdadeiras gueixas? Oh, que pena”.
Deixei a moto estacionada no passeio e fui a um parque tirar umas fotografias. Quando voltei tinha dois policias de volta da moto, a olharem muito para a matricula portuguesa com cara de quem não sabiam o que fazer com aquele caso. Ficaram com um ar aliviado quando eu cheguei e puderam explicar que no Japão não se pode parar no passeio e logo me mandarem seguir, satisfeitos.
É curioso que em todo o Japão não se podem parar os carros na estrada junto ao passeio, tendo toda a gente que tem carro obrigação de ter um espaço previsto para o estacionar. Quando vão a algum lado têm sempre que o deixar em estacionamentos, normalmente pagos mas nunca junto ao passeio. Até porque a maioria das estradas só tem uma via para cada lado, com o tal traço continuo ao meio, de maneira que não há espaço para estacionamentos. O mesmo se aplica às motos que não podem ser paradas em qualquer lado. Tenho infringido algumas vezes esta regra porque eles acho que não sabem como multar uma moto ou carro com matricula estrangeira.
De Gion parti a ver o Templo dourado, que antes foi coberto a folha de ouro pelo seu proprietário mas depois do ultimo restauro está simplesmente pintado de dourado. A imagem é bonita porque o local onde está, junto a um lago, também é fantástico.
Nos restauros dos templos reparei que os japoneses não se preocuparam muito com a originalidade, aliás porque muitas vezes não sabem exatamente como era por dentro, por exemplo. Assim fazem uns restauros à sua maneira muitas das vezes utilizando pormenores como pedra cortada à moderna no chão ou outros pormenores que para quem aprecia bons restauros escandaliza um pouco.
Depois do Templo Dourado ainda fui dar um passeio pela floresta de bamboo, em Arashiyama. Muito gira.
Nesse dia deixei Kyoto pelas quatro da tarde e pus-me a caminho de Tokyo onde saberia que só chegaria dois ou três dias depois. Evitando as auto estradas aqui na ilha principal fazem-se médias muito baixas pois há semáforos a cada 300 metros, e como os carros se arrastam a 40 ou 50 Km/h por todas as estradas o transito torna-se infernal, mesmo de moto. De carro nem quero imaginar o que passam. Qualquer pequeno cruzamento tem direito a semáforos e eles, quando calculam o tempo que se demora a fazer certa distancia, é sempre a médias de 20, 25 Km/h. De moto vou mais rápido mas muitas vezes nestas estradas fiz médias que não ultrapassaram os 40 Km/h.
Assim, passadas duas horas tinha percorrido pouco mais de 70 Km e decidi instalar-me num hotel que encontrei à beira da estrada.
Quando saí para jantar já passava das oito e meia e a gerente do Hotel achou que se calhar já não me serviam. Então propôs-se vir comigo até ao Restaurante.
- Vem jantar comigo?, perguntei.
- Não, vou só acompanhá-lo até lá. É a cinco minutos de aqui.
Nunca me tinha acontecido uma cena destas. Lá veio comigo até ao Restaurante, pediu-lhes que ainda me servissem jantar, por a cozinha já estar supostamente fechada, ajudou-me a escolher a ementa e despediu-se. Único.
No dia seguinte foi a mulher que limpava os quartos que se desfez em vénias quando eu saí do quarto. Acompanhou-me até ao elevador em pequenas vénias, sempre a dizer coisas em japonês que deviam ser maravilhosas de ouvir, chamou o elevador para mim e, quando eu entrei fez uma única vénia mas em que o corpo fez um ângulo de 90º na cintura e assim ficou. Temi que se desequilibrasse e se estatelasse no chão.
Este género de cenas só se passam nestas pequenas terras de província onde, quando aparece um estrangeiro, ficam numa excitação. Nas grandes cidades são  mais comedidas e as vénias mais reduzidas, o que é uma pena.