23 de fevereiro de 2017

Monterrey


Monterrey é uma cidade industrial sem graça nenhuma. Um entranhado de viadutos com muito movimento e construções feias. Acabei por lá ficar duas noites porque os filhos de uma amiga que lá vivem me convidaram para almoçar e o dono de um restaurante português para jantar. Durante o jantar, no Sabores de Portugal, veio um Mexicano cantar, amigo do dono, com timbre de cantor de ópera. Teve graça.
No dia seguinte parti a caminho da Cidade do Mexico. São cerca de 900 Km que fiz em dois dias. A estrada começa por subir uma montanha e depois é grande parte ao longo de um enorme planalto. Parei na cidade de Matehuala onde encontrei um simpático Hotel com bungalows no jardim e um bom restaurante, para variar das terríveis refeições nos Estados Unidos.
Até ali tinha apanhado pouco movimento mas a uns 400 Km da Cidade do México  uma primeira fila de camions bloqueava a auto estrada. Fui passando pela berma mas, passados uns três ou quatro quilómetros, ao ver que a fila era interminável, decidi ligar a Gopro para filmar. Fui pela berma, a uma média de uns 50 Km/h a passar centenas de camiões até à causa da fila que eram, simplesmente, obras de repavimentação a ocuparem uma das faixas. Verifiquei depois que o filme tinha 14 minutos, o que dá ideia da dimensão do engarrafamento, na grande maioria composto por camiões.
O Mexico é um país com bastante industria e um dos maiores produtores mundiais de petróleo, sendo o principal cliente deles os Estados Unidos. Daí este enorme movimento de camiões na principal estrada que liga a capital ao seu grande comprador.
Depois deste ainda apanhei mais dois engarrafamentos de camiões na auto estrada, um deles provocado por meia dúzia de camiões gigantescos que transportavam tubos descumunais para a refinaria estatal e que, pelas suas dimensões, bloqueavam um dos sentidos da auto estrada, tendo a policia que encaminhar todo o transito pelo outro.
A Cidade do México é muito mais evoluída do que estava à espera. Com os seus nove milhões de habitantes, sem contar com os arredores, tem um transito muito intenso mas o nível de vida é bastante elevado e, no centro, nas noites de fim de semana, excelentes restaurantes estão cheios de movimento enquanto nas ruas vemos Porsches e Bentley’s a circularem. Não representa o país profundo onde mais de 40% da população vive na pobreza. Entrei num stand da Tesla, onde tinham os últimos modelos em exposição e bem informadas vendedoras. Os espaços verdes existentes não estão muito bem arranjados mas têm muitos e interessantes Museus como o de Antropologia, que conta a história das várias civilizações que povoaram a região antes da chegada dos espanhóis, em 1519.
Fiquei bem instalado em casa do Embaixador Português, que tinha conhecido quando da minha passagem pela Índia, há uns anos atrás.
Depois das enormes filas de camiões ao longo do dia cheguei à Cidade do México já de noite. No dia seguinte fui tratar de substituir o amortecedor traseiro da Cross Tourer, que tinha sido para aqui enviado desde Portugal, pois os rolamentos de apoio do original não tinham resistido aos maus tratos nas estradas da Índia e Myanmar com a moto muito carregada. Não havia nenhuma oficina de motos por perto onde pudesse trabalhar de maneira que encontrei uma de bicicletas onde, ao longo de várias horas, pude fazer a complicada operação junto ao passeio, com o empréstimo de ferramenta do simpático homem da minúscula oficina que, estando situada num dos melhores bairros da cidade, tinha a todo o tempo senhoras bem arranjadas a chegarem nos seus SUV’s, por vezes com choferes, para trazerem ou recolherem bicicletas dos filhos.
No dia seguinte decidi visitar o famoso Museu de Antropologia. Era Domingo e uma das faixas da enorme Avenida Reforma é fechada ao transito para só permitir a circulação de bicicletas e patins, de maneira que só consegui estacionar a moto longe e acabei por levantar uma bicicleta de empréstimo da Câmara para me deslocar até ao museu. É interessantíssimo. Mostra-nos não só a história da evolução humana, desde há 3,5 milhões de anos, passando pela época em que a América foi descoberta por povos que atravessaram da Asia, pelo Norte da Rússia, para o Alasca através do que é hoje o estreito de Bering quando, na era glaciar, as reduzidas águas dos Oceanos o secavam. Finalmente, as tribos autóctones que se formaram e a chegada dos Espanhóis, por mar, em 1519.



19 de fevereiro de 2017

Laredo


Saí de Worthon a caminho de Laredo, a cidade junto à fronteira do México onde iria deixar os Estados Unidos. Percorri neste país mais de 20.000 Km nos últimos três meses, atravessando 28 Estados de Norte a Sul, Este a Oeste. Gostei de o ficar a conhecer melhor que a grande maioria dos americanos. É realmente a maior democracia do mundo que só não é totalmente bem sucedida porque nunca houve nem haverá uma integração completa entre brancos, pretos, Índios, ou “native americans” como gostam de ser apelidados, e os chamados latinos, em que a maioria são Mexicanos.
O país tem sítios de uma beleza natural extraordinária, uma população bem adaptada ao seu tamanho, sem serem de mais nem de menos e a prova de que funciona é que a maioria dos mais de 300 milhões de habitantes pertencem a uma classe media com um poder de compra elevado, que tem um bom nível de vida, só estragado pelos maus hábitos alimentares. Têm uma industria e agricultura muito desenvolvidas sendo quase autossuficientes mas por terem uma densidade populacional relativamente baixa preocupam-se pouco com as questões ambientais, que afectam muito mais outros países e cidades superpopulosos.
As últimas centenas de quilómetros até Laredo são feitos numa estrada de longas rectas através de uma savana ao estilo Africano mas mais densa, com pouco movimento e sem construções ou bombas de gasolina. A poucas dezenas de quilómetros da cidade a polícia faz uma segunda inspeção aos carros que acabaram de entrar no país vindos do México, pois é uma das principais rotas da droga que entra nos Estados Unidos vinda da América Central e do Sul.
Laredo já tem um ambiente muito mexicano e a maioria da população vem do país vizinho. Na rua, bombas de gasolina e supermercados houve-se falar mais espanhol que inglês. Já na cidade reservei estadia no Motel 6, uma cadeia americana de baixa qualidade, através da Internet de um Hotel onde parei. Não sabia é que haviam três na cidade. Fui ao primeiro que encontrei  e enquanto tentava saber, com o rapaz da recepção, qual seria o Motel 6 em que tinha reserva, uma americana dos seus 40 anos, meia louca, acompanhada de um guarda costas Mexicano enorme, meteu conversa comigo enquanto retirava papéis amachucados da carteira que incluíam dezenas de “travel cheques”. Entre conselhos sobre o Hotel e o tipo de quarto onde eu deveria ficar queixava-se que o homem do banco não lhe tinha satisfeito uma qualquer pretensão e que ela se tinha virado para ele e respondido: “mas eu sou dona do banco”. O guarda costas  tinha ar de já não aguentar aturar a mulher por muito mais tempo, que acabou por arrancar e abandonar o telemóvel em cima do balcão, para ele voltar atrás   recolhe-lo cinco minutos depois.
Lá descobri em qual dos três Motel 6 tinha reservado quarto e arranquei, já de noite. Tinha comprado num supermercado um arroz com galinha em lata que foi o meu jantar, aquecido no micro ondas do Motel. Acordei às sete da manhã com um homem a entrar-me pelo quarto que, quando me viu dar um salto na cama, voltou a sair. Não adormeci outra vez e pouco depois acabei por me levantar e arrumar as coisas para passar a fronteira.
Quando, uns dias antes, passeava pelas ruas do French Quarter em New Orleans parei a ver as pinturas de um artista de rua que eram melhores que o costume. O homem meteu conversa comigo e quando lhe disse que ia para o México perguntou:
- “Leva uma pistola, certo”!?
- “Não”
- “E uma faca”?
- “Também não. Não me serviam de grande coisa porque acho que não     conseguiria dar um tiro ou uma facada em ninguém”.
- “Pois. Eu também não”, respondeu o homem. “Por isso não vou para esses sítios”.
O Norte do México é suposto ser perigoso devido aos gangs de droga que têm o mau hábito de raptar quem pensam poder render-lhes uns tostões. Quando estava nos Estados Unidos noticiaram que dois miúdos, que tinham decidido ir  fazer surf para as praias do Norte do Mexico, tinham sido mortos e os corpos queimados por um destes gangs. Por estas razões recomendaram-me que enchesse o depósito de gasolina nos Estados Unidos e, depois de passar a fronteira, só parasse 250 Km depois, em Monterrey.
Quando cheguei á fronteira americana disseram-me que para carimbar o Carnet (espécie de Passaporte da moto) teria que ir à fronteira onde passam os camiões, uns dez quilómetros para Ocidente. Fui até lá tratar dos papéis mas não me deixaram sair por ali com a moto e tive que regressar à primeira. Do lado Mexicano nem me mandaram parar dando a entender que todos os estrangeiros que vêm do lado americano são bem vindos, embora raros. A cidade de Laredo do lado Mexicano é uma vila com um ar sinistro. Ruas estreitas e sujas com casas descoloridas em mau estado. A população tem o ar sofrido de quem está resignado às agruras da vida. De vez em quando passo por “pick-ups” com jagunços na caixa de carga que têm o ar de ir a caminho de um tiroteio. Segui o conselho que me tinham dado, atravessei a vila e entrei na via rápida que nos leva a Monterrey. É uma estrada que começa em mau estado mas se transforma em auto estrada, com pouco movimento. Uns dez quilómetro depois um sugestivo sinal na beira da estrada indica: “fim da zona controlada pela polícia”, como quem afirma: a partir de aqui não nos responsabilizamos pelos problemas que possa ter.
Cheguei a Monterrey sem sobressaltos e, já perto da cidade, parei para pôr gasolina e aproveitei para almoçar no restaurante junto.

16 de fevereiro de 2017

Houston


Em Houston fui visitar o centro da NASA que é espetacular. Ali está a maquete de um Space Shuttle montada num dos dois Boeing 747 originais que a NASA utilizou para transporte dos cinco Space Shuttle existentes. Estes fizeram, entre eles, mais de uma centena de viagens espaciais entre 1981 e 2011, ou em deslocações à Estação Espacial Internacional, para entregar e trazer cientistas/astronautas e material ou simplesmente para lançar satélites no espaço.
Dos cinco Space Shuttle construídos dois ficaram destruídos em acidentes onde morreram 14 astronautas. A nave era normalmente lançada na Florida com a ajuda de dois motores auxiliares que depois eram injectados, caíam de para quedas no mar e eram reaproveitados. A aterragem costumava ser na California e daí a existência dos 747, para a transportar de volta através do continente americano, embora tenham sido feitos testes em que o Space Shuttle foi lançado a partir dos 747. 
A Estação Espacial foi sendo construída com a ajuda de vários países e hoje em dia tem o tamanho de um campo de futebol.
Nos últimos anos os americanos não têm tido esta espécie de autocarro espacial operacional e têm sido os russos a organizarem as “carreiras”. A viagem também não é longe porque soube agora que a Estação Espacial está a menos de 400 Km da terra ou seja, a pouco mais que uma viagem de Lisboa ao Porto que, às velocidades a que aquele trambolho anda, não deve demorar mais que alguns minutos.
Em 2018 a NASA já terá novo transporte e prevêm até dar mais um ou outro salto à lua, onde já não vão desde 1972, na preparação para a primeira viagem tripulada a Marte. Esta parece ser mais complicada pois só uma ida demora cerca de oito meses. Calculam que os astronautas fiquem lá um mesito a tentarem plantar umas couves em estufas especiais, para ver se é possível ter vida em Marte. Com mais oito meses para a volta já faz um ano e meio, o que pode criar problemas físicos ao pessoal. O astronauta que ficou mais tempo no espaço quando voltou media mais três centímetros pois a falta de gravidade fez com que a coluna esticasse, para além de sofrer de descalcificação acentuada dos ossos. Os que forem a Marte são capazes de chegar tão esticados que já não se aguentam em pé.
É realmente fascinante este mundo da conquista do espaço sem o qual não existiria a Internet, por exemplo, ou os sistemas de GPS.
Quando deixei o centro espacial já passava das seis da tarde. Normalmente evito rodar de noite mas, como me sentia fresco e a temperatura de 25º estava agradável, decidi fazer uns 100 Km e fui ficar a Whorton.
Estou em pleno Texas, terra de Cowboys e petróleo, onde Trump é visto como o salvador da pátria. Uma revista “cor de rosa” exposta nas bancas anuncia na capa que Hillary Clinton fugiu do país para não ser presa e nas bombas de gasolina vendem stickers para colar na parte de trás dos carros com desenhos de pistolas e a frase: “nós não chamamos o 911” (112).
Tenho o habito de dormir com as janelas dos quartos abertas e aqui entraram uns mosquitos no quarto durante a noite que tinham cerca de três centímetros de comprimento e me deixaram o pescoço, a careca e uma perna num estado lastimoso. No dia seguinte de manhã estava a sair de um supermercado onde fui comprar creme para as picadas e repelente, para evitar as próximas, quando um texano ruivo de barba bem aparada, rabo de cavalo e uma camisa chinesa dourada impecavelmente engomada, veio ter comigo. Perguntou-me de onde vinha e para onde ia e chamou a mulher chinesa também bem arranjada e penteada, com um vestido comprido. Já tinham feito umas viagens de moto pela Europa os dois e também na China. Iam nesse dia a caminho de Houston onde a mulher apresentaria o livro que tinha escrito sobre essas viagens, à comunidade chinesa local, certamente, pois não estava traduzido em inglês. Que personagens.

14 de fevereiro de 2017

Lafayette




Estava um dia de sol lindo quando deixei New Orleans, a contrastar com a tempestade de dois dias antes. Ainda quis passar na zona mais afectada pelo Tornado para tirar umas fotografias mas a policia tinha o local bloqueado.
Segui para Ocidente e ainda não eram quatro da tarde quando decidi parar, numa pequena cidade chamada Lafayette. Vi um Motel Super 8, uma cadeia de fraca qualidade mas que tem dos melhores preços e instalei-me ali. Infelizmente. A recepção estava em obras e o corredor um pandemónio mas a situação podia ser pior até que,… piorou. A internet não funcionava e, quando saí para jantar e perguntei à menina da recepção onde podia ir, respondeu-me, com má cara, que não sabia e para eu olhar para um mapa que estava em cima do balcão onde só vi indicados os Mc Donald’s locais.
Estes Estados do Sul são os que resistiram mais à abolição da escravatura e no fundo, ainda hoje, os brancos misturam-se pouco ou nada com os pretos, que sentem esse trauma mais que no resto do país. O racismo normalmente resulta no mesmo sentimento em sentido contrário e os americanos, mesmo sem o admitirem, são acentuadamente racistas, principalmente nos Estados do interior, mais isolados do mundo exterior. Assim, existe também um racismo acentuado dos pretos para com os brancos. Talvez por isso alguns parecem estar mal com a vida e isso ressente-se na maneira como tratam as outras pessoas.
Nós não percebemos bem esta situação porque somos o menos racista dos povos e o único colonizador europeu que se misturou e integrou nas sociedades colonizadas, do Brasil ao Oriente, passando por África e Índia. Ainda hoje os portugueses que vão viver para África se casam com as locais sem qualquer problema e semeámos uma cultura que permitiu situações como a de haver na Malásia uma colónia portuguesa com centenas de anos que continuam a transmitir a língua de pais para filhos enquanto Holandeses, que lá estiveram depois de nós e por mais tempo, não deixaram mais que edificações. Também por isso temos relações sentimentais com as ex-colónias que mais nenhum país tem, ao ponto de quando ganhamos um Campeonato Europeu de futebol os habitantes de Timor ou Moçambique festejarem o feito como também deles. 
Isto mostra uma civilização e cultura, neste aspecto antropológico, mais avançadas que a de qualquer outro país europeu.
Mas voltando a Lafayette, acabei a jantar, num quase tão horrível como Mc Donald’s, Wendy’s um hamburger que, ao comê-lo, me fez sentir a reduzir o meu tempo de vida por largos meses, ou mesmo anos. Sempre fui contra este tipo de hamburgers e quando os meus filhos, em miúdos, insistiam para irmos a um Mc Donald’s e eu acabava por ceder, comia uma salada ou uma sopa enquanto eles se envenenavam.
Quando regressei ao Hotel, pelas dez da noite, decidi ir até à bomba de gasolina do outro lado da rua, a pé, comprar um chocolate, onde estavam meia dúzia de clientes e a empregada, todos pretos. Quando paguei, escolhi as moedas até preencherem a quantia certa e fui pondo em cima do balcão. Ao arrasta-las para o pé da mulher  ela pediu, sem sequer olhar para mim, para que eu lhas desse na mão. Ao início nem percebi o que me pedia mas o cliente que estava atrás de mim esclareceu.
-Sim, com certeza. E apanhei as moedas, passando-as para a mão dela. Esta gente tem mesmo um problema.
No dia seguinte a água quente deixou de correr a meio do meu duche. Saí da casa de banho para ligar para a recepção coberto de sabão mas o telefone não funcionava e acabei o banho com água fria. Desci depois para tomar o pequeno almoço mas tinha acabado às ... 9 horas. Não me exaltei com a menina da recepção mas disse-lhe que iria escrever para a sede da Super 8, para o Booking, “you name it”.
Esta, que não sendo mais simpática era profissional, pediu desculpa e disse que me iria creditar no cartão metade da estadia.
O dia tinha começado mal mas não se endireitou logo. Quando saí do Hotel e entrei na autoestrada, enganei-me e segui em sentido contrário. Lembro-me de pensar, ao passar umas pontes sobre pântanos idênticas às que tinha atravessado no dia anterior, que este estado de Louisiana era um pântano pegado. Só passados 60 Km, ao ver a indicação de uma cidade por onde tinha passado antes constatei  que as pontes eram as mesmas que tinha atravessado 24 horas antes.
Dei meia volta, pus gasolina e segui viagem. Talvez esta volta me tenha ajudado pois quando arranquei de manhã não tinha muita gasolina e tinha decidido seguir até Houston por uma estrada secundaria que acabei por apanhar uns 20 Km depois de Lafayette. Só não fazia ideia que o trajecto era tão isolado que, durante cerca de 200 Km, só passaram por mim meia dúzia de carros, vi umas dezenas de casas quase abandonadas e comércio ou bombas de gasolina nem pensar. Mas a estrada era boa e gostei de rodar isolado por um par de horas.
Até que cheguei a Cameron. Aqui havia finalmente gasolina, quando o depósito já estava outra vez vazio. Para além disso vendiam pisas na própria bomba, que me souberam a lagosta, seguida de um gelado.
Depois de Cameron não havia ponte para atravessar o rio e tive que entrar com a moto para um pequeno Ferry que fazia a travessia de uns cem metros cobrando apenas um dólar por veículo, fosse ele de duas, quatro ou mais rodas.
Do outro lado passei a rodar junto à costa numa zona onde as casas estão todas construídas sobre altas estacas, dando a entender que o mar tem o hábito de invadir as terras. Mas estava tudo com um ar bastante desolador. Pelas quatro da tarde entrei no Texas e pouco depois cheguei a Port Arthur onde estão instaladas enormes e velhas refinarias que, ao deitarem uma fumarada poluente tornam o ar quase irrespirável. Texas é onde está a maioria dos poços de petróleo americanos e em vários locais do estado acabei por ver outras refinarias, a maioria com muito melhor aspecto que esta.
Cheguei a Houston pelas cinco e meia da tarde. Tinha percorrido 600 Km, o que é  mais que o costume.

11 de fevereiro de 2017

New Orleans





Estava na sala do Hostel quando o meu telemóvel começou a apitar estridentemente e ininterruptamente. Nunca antes tinha emitido aquele som. Tirei-o do bolso e olhei para o écran. Uma mensagem avisava: “Tornado. Procure um abrigo”. Instintivamente olhei pela janela. Chovia torrencialmente e um dos enormes chapéus de sol do terraço, com a mesa de ferro agarrada, levantou voo mas nada mais que isso. Liguei a televisão. Um homem analisava o avanço do tornado. Estava a passar na parte oriental de New Orleans, a meia dúzia de quilómetros do Hostel onde estava instalado desde o dia anterior. Tinha aqui chegado debaixo de um sol lindo e uma temperatura de mais de 20º.
Nas noticias da noite a televisão mostrou as muitas dezenas de casas destruídas pelo furacão que atravessara a região. Houve um morto e dezenas de feridos.
Nesta região não são muito comuns mas, em 2005, tiveram o Katrina, que provocou enorme destruição e quase dois mil mortos.
Cheguei a Atlanta, nos Estados Unidos, há quatro dias, depois de ter passado o Natal em Portugal. As temperaturas estavam próximas de zero graus e decidi arrancar logo rumo ao Sul, à procura do bom tempo a caminho do Mexico.
Parei no primeiro dia em Auburn, uma cidade de província já no Alabama. Quando acordei, na manhã seguinte, chovia e não tive outro remédio senão arrancar assim. O termómetro da moto marcava 9º o que era bem melhor do que se fazia sentir mais para Norte. Em Boston e Washington, onde tinha feito escala nos voos desde Portugal, as temperaturas estavam negativas.
Pela uma da tarde, uns 200 Km para Sul, o céu abriu e ficou um dia lindo à medida que os números no termómetro subiam até aos 20.
Cheguei a Pensacola Beach, já na Florida, pelas quatro da tarde. Fui até à fantástica praia de areia branca muito fina e sentei-me encostado a um banco de areia a descansar ao sol, mesmo com o fato e as botas calçadas. Fiquei uns 15 minutos a ver o mar antes de ir procurar um Hotel onde ficar essa noite. Era dia de “Super Bowl” e o país estagna para assistir ao maior evento desportivo do ano deste lado do globo. Nesta “superfinal” de futebol americano enfrentavam-se os Falcons e os Patriots. Fui até um bar local ver parte do jogo mais para apreciar a festa que o jogo em si, pois não conheço sequer as regras. É como os portugueses a verem a final de um europeu de futebol. Só que aqui ninguém se queixa dos árbitros. Parece que nunca falham ou pelo menos não dão importância aos seus possíveis erros. O intervalo tem sempre um espectacular show de música. Desta vez a artista foi Lady Gaga que montou um numero de circo e dança sensacional, que se sobrepunha em muito à música em si.
No dia seguinte parti para New Orleans primeiro junto à costa e uns 100 Km à frente a apanhar a autoestrada, único trajeto com enormes pontes a atravessarem os grandes estuários desta zona pantanosa do Louisiana, incluindo o do Mississipi.
New Oleans á a capital do Jazz e “respira-se” música por toda a cidade mas, principalmente, no famoso “French quarter”.
A capital do Louisiana foi fundada pelos franceses em 1718 e o seu nome deve-se ao Duque de Orleans que governou a cidade ao serviço de Luis XV. Em 1763 foi cedida aos Espanhóis, mas Napoleão voltou a ocupá-la por pouco tempo, antes de a incluir na venda de Louisiana aos americanos, em 1803.
Foi aqui que nasceu o Jazz, em finais do século XIX e inícios do século XX. Nunca fui apreciador desse tipo de música.... até agora.
Assistir aos concertos de Jazz improvisados que se desenrolam nas esquinas da Frenchmen St. ao inicio da noite é uma experiencia única. Mendigos dançam na rua e de vez em quando passam pequenos grupos de maltrapilhos, já nos seus 60 anos, a fumarem charros. Depois, porta sim, porta não, há bares com música ao vivo com graus de qualidade que variam entre o medíocre e o sensacional. Alguns dos melhores artistas de Jazz do mundo actuam ali ... quando lhes apetece. Por vezes junta-se um trompetista a um concerto que já está a decorrer numa improvisação continua e animada que deixa os espectadores mais desprevenidos maravilhados e os “habitués” com o ar de quem está a assistir à maior banalidade do mundo. O jazz flui nas veias desta gente e toda aquela parte da cidade acaba por ser um enorme palco onde se misturam velhos hippies com miúdos tatuados, pedintes de chapéu virado no chão ou artistas que pintam cenas de rua. Durante o dia grupos de turistas acompanham mulheres com ar de anfetaminadas que, com muitos gestos e em voz alta, contam a história e histórias do bairro. Uma animação contínua. Passei a gostar de Jazz.

23 de janeiro de 2017

Atlanta


Nesta minha volta ao mundo tenho evitado circular em auto estradas e até chegar aos Estados Unidos, exceptuando um dia no Japão em que fui obrigado a percorrer muitos quilómetros, praticamente não as utilizei.
A razão principal é que pelas estradas de província se vê e conhecem melhor países e populações.
Nos Estados Unidos foi diferente e acabei por circular bastante em auto estradas. Aqui o motivo foi porque em muitos locais não existem outras ligações entre cidades ou as que existem são também através de longas rectas sem graça e com o inconveniente de muitos sinais luminosos pelo caminho.
As auto estradas americanas não são as de seis e oito faixas que vemos nos filmes. Essas só existem junto às grandes cidades. As auto que percorrem o país de lés a lés são piores que as europeias. Têm só duas faixas para cada lado, piso apenas razoável e não têm “rails”, que sairia uma fortuna coloca-los em tantos quilómetros de auto estradas. Por isso as faixas de cada sentido estão sempre afastadas umas das outras um mínimo de uns dez metros, a maior parte das vezes com uma pequena vala entre elas. Não existem áreas de serviço mas apenas áreas de descanso que têm pouco mais que uns bancos e casas de banho e são maioritariamente utilizadas por camiões. A grande vantagem é que não há portagens  e como têm indicações nas saídas em que existem restaurantes e bombas de gasolina perto, é fácil sair e voltar a entrar na auto estrada para reabastecer ou almoçar. O país de meio para baixo é quase todo uma enorme planície de maneira que a maioria destas autoestradas não têm subidas nem descidas e são principalmente formadas por enormes rectas.
O limite de velocidade costuma ser entre 65 e 70 milhas por hora (+/- 105 e 110 Km/h) e por vezes até 80 mas na prática, se rodarmos a não mais de 130 Km/h não temos problemas com a polícia.
Os camiões quase sempre podem circular à mesma velocidade que os carros e tenho-os visto regularmente a 130 Km/h e alguns a 140 ou mesmo a 150 Km/h. Por rodarem a estas velocidades, embora haja muitos controlos de peso, os seus pneus resistem mal e vemos muitas carcaças de pesados nas bermas da estrada e algumas mesmo na via pelo que, de moto, tenho que tomar muita atenção a esses perigosos restos de borracha, principalmente se a visibilidade é curta como nas alturas em que chove muito.
Nunca percebi o conceito das Harley Davidson. Até agora. Constatei finalmente que as motos são feitas para andar nestas estradas só de rectas, sem capacete, a passear. Não precisam de curvar bem nem de andar depressa, basta que o motor tenha um bom binário e o pneu de trás seja largo, para arrancarem bem nos muitos sinais luminosos que existem espalhados por este país. As motos foram feitas para os Estados Unidos, onde não há problema por serem barulhentas ou poluírem mais do que deviam. Não fazem sentido é em nenhum outro país do mundo.
De Tampa fui até Atlanta, mais a Norte, visitar um velho amigo, por autoestrada. Quando iniciei esta etapa da viagem nos Estados Unidos a ideia era ir até ao Mexico onde deixaria a moto antes do Natal. Como me atrasei decidi deixá-la por aqui, em Atlanta e parto para o Mexico quando regressar, em Fevereiro.
Quando seguia pela auto estrada, na manhã do segundo dia em que fui de Tampa para Atlanta, comecei a sentir a moto muito instável, mesmo em recta. De início pensei que seria a suspensão traseira que ainda não tive oportunidade de reparar mas foi piorando muito e resolvi parar numa estação de serviço. O pneu traseiro, com um prego no piso, tinha perdido muita pressão. Tenho comigo um kit de reparação mas, por não ter prática em utilizá-lo, embora fosse domingo, preferi procurar uma oficina de reparação de pneus. Enchi-o, percorri mais cerca de 50 Km e cheguei a uma cidade um pouco maior. Este estado da Giorgia é essencialmente um estado de raça negra, descendentes de escravos africanos. Quando cheguei a esta pequena cidade fui antes por gasolina para aproveitar e perguntar onde havia uma oficina de reparação de pneus. Desde o atendedor da caixa ao ajudante passando por todos os clientes parecia estar em Africa. Encontrei a oficina que me indicaram onde um simpático preto de uns 140 Kg não tinha mãos a medir. Por ser domingo era o único que estava a trabalhar e a cada minuto chegavam mais carros conduzidos por outros pretos a pedir para trocarem pneus ou repararem furos. O homem, simpaticamente, disse-me que não reparava pneus de motos e que experimentasse outra oficina mas, quando ia a arrancar disse-me:
- “Espere. Eu reparo-lhe o pneu mas terá que me pagar 20 dólares pelo trabalho”. Concordei de imediato ao que ele respondeu:
- “Sorry, but money talks”. Nem considerei caro e ele acabou por me colocar um taco no pneu depois de retirar as rodas a dois dos carros que esperavam, para que os clientes não fugissem. Não vi um único branco naquela cidade.
Regresso em início de Fevereiro para seguir para a América Central e do Sul.

14 de dezembro de 2016

Key West


No dia em que parti para as ilhas tinha acordado às oito e meia da manhã com o barulho de grupos de Harleys a passarem à porta do Motel a caminho de Key West. Não deve haver despertar mais agradável.
Quando estava a passar de uma ilha para outra por pontes e istmos artificiais parei num restaurante que me indicaram onde a esplanada dava para uma mini marina, reservada aos clientes do restaurante. À porta estavam uma meia dúzia de Harleys com um lugar vago no meio onde parei a Cross Tourer. Quando ia a entrar vinham eles a sair. Perguntaram de onde vinha e ficámos um pouco à conversa. Só quando iam a arrancar um deles, que tinha parado a moto do outro lado da entrada, como que afastada do grupo, confessou de certa maneira envergonhado:
- “A minha também é uma Honda”. Embora, à vista, pudesse perfeitamente ser uma Harley, tão bem as copiam.
- “Pois. Vê lá se isso agora pega”, diz-lhe o que tinha ar de chefe do grupo, com ar de desprezo.
- “Porquê? Não pegou”? Perguntei eu.
- “Esta manhã não. Tivemos que a andar a empurrar porque não tinha bateria”.
- “Deixe o tempo passar que verá qual é mais resistente”, disse para o homem da Honda. “Fez uma grande compra. É muito melhor que estas coisas”. E lá seguiu ele radiante da vida e os outros a encolherem os ombros como quem diz. “Pois, está bem”.
Acabei por ficar duas noites em Key West. Durante o dia dei uma volta pela vila e ao fim da tarde fui à pequena praça onde atracam os paquetes de cruzeiro e em que, durante esta época alta, todos os dias alguém monta um qualquer espetáculo, depois de todos observarem o pôr do sol virados a Sul. Desta vez era um cómico francês que trazia uns bancos altos, do tipo dos utilizados pelos domadores de feras no circo, de onde ele fazia saltar os seus gatos, quando eles decidiam obedecer ás suas ordens e o homem ficava radiante, pedindo aplausos.
Tinha acabado de ver o espetáculo quando uma mulher veio ter comigo:
- Você não é de Cascais? Eu conheço-o. Vivia há muitos anos em Miami e vinha acompanhada de uma sobrinha que tinha estado comigo, há poucos meses, em casa de amigos comuns.
No dia seguinte voltei a cruzar as Key Islands para Norte a caminho da costa Ocidental da Floria, que dá para o golfo do Mexico. Nesse dia visitei o Everglades National Park que é uma espécie de pântano gigante, com mais de 6000 Km2 onde habitam 50.000 crocodilos e muitas outras espécies de répteis para além de mamíferos, aves e insectos. Os turistas passeiam nas estreitas estradas do parque num pequeno comboio, ou de bicicleta, junto aos crocodilos que nadam nos canais junto à estrada ou descansam nas suas margens sem parecerem sentir qualquer apetite por carne humana. O único acidente grave que aqui houve, contou-nos o guia, foi quando há duas décadas um miúdo de dez anos se despistou e caiu com a bicicleta em cima de um crocodilo que estava num dos canais e não se fez rogado à oferta de alimento extra.
E lá íamos parando a cada cem metros para tirar fotografias a mais um crocodilo na beira da estrada ou a nadar num dos canais adjacentes.
- “Aquele é fêmea”, diz um dos turistas.
- “How can you tell”?, responde o guia com ar intrigado
- “She has a big mouth”, responde o turista divertido.
Dos Everglades segui para Tampa, já na costa, onde fiquei três dias em casa de uma amiga. A cidade não tem a animação e o espalhafato de Miami enquanto as casas da costa não são tão espetaculares mas Tampa tem o encanto de uma baía e uma península com pontes longas de dez quilómetros que a ligam ao continente e, do outro lado, no do Golfo do Mexico, estreitas ilhas formam a zona de praias que se desenvolveu, em algumas delas, mais que o desejável.