25 de agosto de 2016

Hamaoka - Honshu




Arranquei de Minakuchi por volta das dez e meia, como é meu costume. Não tenho mapa do Japão porque os nomes vêm todos em japonês e por isso serve-me de pouco. Costumo por isso ver na noite anterior no “google maps” o trajeto que pretendo fazer e escrevo num papel as cidades por onde tenho que passar, assim como os números das estrada a seguir. Uns e outros costumam estar escritos nos sinais de trânsito, também em Inglês.
Neste caso, a caminho de Tóquio, não havia muito que saber, porque teria simplesmente que seguir a estrada nacional nº1 que raramente tem mais que uma faixa para cada lado, de maneira que tenho feito pouco mais de 200 Km por dia.
Neste dia aconteceu uma cena caricata. Por vezes nestas estradas aparecem cruzamentos, assinalados, em que a estrada segue para a esquerda ou direita e não em frente. Tenho que ir com uma certa atenção para não me enganar.
Desta vez distrai-me e fui em frente em vez de virar à esquerda. Comecei a achar estranho a estrada estar a tornar-se estreita de mais para uma nacional 1 e o movimento baixar drasticamente. Achei que me tinha enganado mas decidi andar mais um pouco para ter a certeza. Até que... entrei pelas instalações de uma central nuclear. O portão era largo e estava aberto de maneira que nem reparei que existia. Ouvi uma voz num altifalante que até parecia em português a dizer : Onde vai?. Se calhar é parecido em japonês, como algumas outras palavras, mas achei que não era para mim.
Continuei por ali dentro até começar a ver mais porta paletes e camions na estrada que carros. Constatei que me tinha enganado e dei a volta só então percebendo que aquilo era uma central nuclear. Fiquei chocado com o que vi e tirei duas ou três fotografias, felizmente desta vez sem ser preso, como me aconteceu no Irão. No portão estava um homem à minha espera que me mandou sair com ar de mau e sem qualquer ameaça de vénia.
O que me chocou foi o estado lastimável em que se encontrava a Central Nuclear, com tubos e depósitos cheios de ferrugem.
O que se passa é que depois do desastre de Fukushima, em 2011, o governo japonês prometeu fechar todas as centrais nucleares no país. Só que é mais fácil dizer do que fazer. 30% do fornecimento de eletricidade no país estava baseado nas Centrais Nucleares e para acabar com elas tinham ou que ter barragens e outra produção limpa de energia em quantidade suficiente, o que não é o caso, ou passarem a produzir eletricidade queimando combustível, o que iria contra todos os recentes acordos internacionais a nível de poluição ambiental. Penso que sejam esses os motivos pelos quais eles mantêm uma ou outra central nuclear em funcionamento, enquanto não tiverem uma alternativa viável. O problema é que, como esta, muitas estarão em péssimo estado e não as podem renovar pois se as desmontam já não faz sentido construir novas, depois de anunciarem que as iriam eliminar. Assim vão mantendo alguns destes monos em funcionamento. Esta, pelo que li depois de lá passar, estará desativada mas continua com muito movimento pois não deve ser fácil verem-se livres dos materiais radioativos quando decidem acabar com elas.
O problema é que o país tem tremores de terra fortes a cada 5 anos e, se o de 2011 provocou aquele desastre, pelo tsunami que veio atrás, estou convencido que se calha terem um com o centro num sítio como esta central nuclear de Hamaoka aquilo desmancha-se tudo. Pelo menos é a ideia que dá ao olharmos para ela e aprendi  que uma coisa para estar em bom estado tem que, em primeiro lugar, aparentar estar em bom estado.
Neste dia passei ainda por um simpático casal, cada um na sua Harley. Quando passei por eles disse-lhes adeus e o rapaz para me corresponder o aceno quase se estampou. Parei mais à frente numa loja para comprar água e eles viram-me e também pararam. A miúda andava de moto há um ano e ele, pelo que vi, devia andar há um ano e dois dias. Bom espírito.

23 de agosto de 2016

Minakuchi - Honshu - Japan


Em Kyoto comecei por visitar Gion, o tal bairro das Gueixas. Ás vezes encontram-se na rua, todas produzidas mas, como não vi nenhuma, pedi a duas meninas vestidas com trajes tradicionais para tirarem uma fotografia ao pé da moto.
- “Não são verdadeiras gueixas? Oh, que pena”.
Deixei a moto estacionada no passeio e fui a um parque tirar umas fotografias. Quando voltei tinha dois policias de volta da moto, a olharem muito para a matricula portuguesa com cara de quem não sabiam o que fazer com aquele caso. Ficaram com um ar aliviado quando eu cheguei e puderam explicar que no Japão não se pode parar no passeio e logo me mandarem seguir, satisfeitos.
É curioso que em todo o Japão não se podem parar os carros na estrada junto ao passeio, tendo toda a gente que tem carro obrigação de ter um espaço previsto para o estacionar. Quando vão a algum lado têm sempre que o deixar em estacionamentos, normalmente pagos mas nunca junto ao passeio. Até porque a maioria das estradas só tem uma via para cada lado, com o tal traço continuo ao meio, de maneira que não há espaço para estacionamentos. O mesmo se aplica às motos que não podem ser paradas em qualquer lado. Tenho infringido algumas vezes esta regra porque eles acho que não sabem como multar uma moto ou carro com matricula estrangeira.
De Gion parti a ver o Templo dourado, que antes foi coberto a folha de ouro pelo seu proprietário mas depois do ultimo restauro está simplesmente pintado de dourado. A imagem é bonita porque o local onde está, junto a um lago, também é fantástico.
Nos restauros dos templos reparei que os japoneses não se preocuparam muito com a originalidade, aliás porque muitas vezes não sabem exatamente como era por dentro, por exemplo. Assim fazem uns restauros à sua maneira muitas das vezes utilizando pormenores como pedra cortada à moderna no chão ou outros pormenores que para quem aprecia bons restauros escandaliza um pouco.
Depois do Templo Dourado ainda fui dar um passeio pela floresta de bamboo, em Arashiyama. Muito gira.
Nesse dia deixei Kyoto pelas quatro da tarde e pus-me a caminho de Tokyo onde saberia que só chegaria dois ou três dias depois. Evitando as auto estradas aqui na ilha principal fazem-se médias muito baixas pois há semáforos a cada 300 metros, e como os carros se arrastam a 40 ou 50 Km/h por todas as estradas o transito torna-se infernal, mesmo de moto. De carro nem quero imaginar o que passam. Qualquer pequeno cruzamento tem direito a semáforos e eles, quando calculam o tempo que se demora a fazer certa distancia, é sempre a médias de 20, 25 Km/h. De moto vou mais rápido mas muitas vezes nestas estradas fiz médias que não ultrapassaram os 40 Km/h.
Assim, passadas duas horas tinha percorrido pouco mais de 70 Km e decidi instalar-me num hotel que encontrei à beira da estrada.
Quando saí para jantar já passava das oito e meia e a gerente do Hotel achou que se calhar já não me serviam. Então propôs-se vir comigo até ao Restaurante.
- Vem jantar comigo?, perguntei.
- Não, vou só acompanhá-lo até lá. É a cinco minutos de aqui.
Nunca me tinha acontecido uma cena destas. Lá veio comigo até ao Restaurante, pediu-lhes que ainda me servissem jantar, por a cozinha já estar supostamente fechada, ajudou-me a escolher a ementa e despediu-se. Único.
No dia seguinte foi a mulher que limpava os quartos que se desfez em vénias quando eu saí do quarto. Acompanhou-me até ao elevador em pequenas vénias, sempre a dizer coisas em japonês que deviam ser maravilhosas de ouvir, chamou o elevador para mim e, quando eu entrei fez uma única vénia mas em que o corpo fez um ângulo de 90º na cintura e assim ficou. Temi que se desequilibrasse e se estatelasse no chão.
Este género de cenas só se passam nestas pequenas terras de província onde, quando aparece um estrangeiro, ficam numa excitação. Nas grandes cidades são  mais comedidas e as vénias mais reduzidas, o que é uma pena.

22 de agosto de 2016

Kyoto - Honshu - Japan




 
Kyoto, que foi capital do Japão por mais de mil anos, até 1869, é uma cidade fantástica. Tem um ambiente descontraído para uma cidade com um milhão e meio de habitantes. Avenidas largas, com espaço, um transito que não é caótico, apartamentos espetaculares sobre o rio, cultura, gastronomia e … Gion, o ultimo bairro japonês onde ainda há Gueixas.
Fiquei encantado com o ambiente e alegria da cidade e tive uma cena curiosa:
Os táxis em Kyoto são quase todos de um modelo Toyota dos anos 70, grande, de tração traseira. São todos pretos e sempre impecavelmente limpos, a brilhar. Provavelmente fabricaram-nos até tarde, tal como os táxis londrinos. Os chauffeurs são uns senhores, vestidos de fato e gravata, discretos e educados. Alguns até andam de boné, como usavam nos anos sessenta em Lisboa.
Serão milhares destes táxis a circularem na cidade.
No dia em que cheguei parei numa bomba de gasolina onde estava um a abastecer enquanto o taxista dava uns retoques de limpeza no porta bagagens.
Perguntei-lhe o caminho para o Hotel que tinha reservado e, muito simpaticamente explicou-me, não sem antes se concentrar para contar quantas ruas eu teria que passar antes de virar à esquerda ou direita para depois explicar com firmeza: one, two, three, four, FIVE, LEFT. One, two, THREE, RIGHT. E assim me indicou o caminho, com convicção. Muito engraçado.
Agradeci-lhe e segui viagem. No dia seguinte, quando procurava o caminho para Gion, já longe de ali, seguia por entre os carros numa enorme fila e decidi parar junto a um dos muitos táxis para perguntar o caminho ao taxista. Era o mesmo do dia anterior. Inacreditável. Ele achou tanta graça quanto eu e desatámos os dois a rir com ele a dar-me palmadas no depósito da moto antes de me explicar o caminho da mesma forma. One, TWO, RIGHT. Extraordinário.
 Na noite anterior tinha saído do Hotel para procurar um restaurante onde jantar. Na esquina de uma movimentada rua vi um “steak house” com bom aspecto. A parte onde me sentei era uma pequena sala mas com janelas largas, a dar para duas ruas, só com meia dúzia de mesas pequenas e altas e bancos para nos sentarmos. Tinha boa onda e boa música a tocar. Sentei-me na única mesa livre. Pedi o menu e uma cerveja à menina gira que me atendeu. Recomendou-me a carne de lombo. Avisou-me que os pratos traziam só 100 gramas de carne, uma batata, um tomate e grelos. Junto trazia outro A4 plastificado onde recomendavam o Kobe beef. Olhei para o menu. O lombo na carne normal custava 1890 yenes, o equivalente a 17 euros. Do Kobe, que vinha por cima, pareceu-me ver 1200.
Pedi-lhe que me trouxesse então carne do lombo mas desse mais barato, de Kobe. Ela só ouviu essa parte e confirmou:
- “so it’s a Kobe beef Sirloin”
- “yes, that’s right”
Passado um bocado trouxe-me um prato rectangular, com uns vinte centímetros de comprimento e dez de largura onde estavam os tais 100 gramas do lombo de Kobe, cortado às fatias, uma rodela de batata, grossa, um mini tomate e um reduzido cacho de grelos. Pedi faca e garfo mas não precisava. Quando provei o primeiro bocado de carne não queria acreditar. Em sessenta anos de vida nunca tinha comido uma carne tão boa, de longe. Era muito tenra mas ao mesmo tempo não se desfazia, o sabor era extraordinário, estava grelhada no ponto exato e tinha a pequena e certa quantidade de gordura. Inexplicável. A primeira coisa que pensei foi que estaria ali caído no dia seguinte ao almoço.
Saboreei bem aquela carne maravilhosa mas despachei os 100 gr mais a rodela de batata, o tomate e os grelos em cinco minutos. Pensei em pedir uma segunda dose mas, como sou rapaz de pouco alimento, achei que por hoje chegava.
Dirigi-me ao bar para pagar a conta, um costume no Japão onde nunca se deixa gorjeta porque eles não estão à espera e até consideram uma ofensa. A menina que me serviu apresentou-me a conta: 13.340 Yenes.
- “Desculpe mas enganou-se. Não são 13.000 mas 1300”.
- “Não. São 13.000. O senhor pediu “Kobe beef”.
- “Mas no menu”.
- “No menu vem lá Kobe beef a 12.000 Yenes”. E foi buscar o menu.
Onde eu, á primeira vista tinha visto 1.200 até por parecer o mais lógico, estavam 12.000. Ou seja, aquele jantar, composto por 100gr de carne, uma rodela de batata, um mini tomate, 10gr de grelos e uma cerveja custou-me a módica quantia de 120 euros. Rir foi o melhor remédio.
Quando regressava ao Hotel pensei: ainda bem que isto me aconteceu. Se tenho sabido o preço antes nunca tinha passado por esta experiencia de comer uma carne que nem sabia existir e sei que é uma coisa que nunca irei repetir na vida pois, mesmo que um dia seja rico, nunca vou pagar 120 euros por cem gramas de carne porque, simplesmente, acho um desperdício. Esta deve ser a tal carne de que tinha ouvido falar de vacas a quem fazem massagens e põem a ouvir música clássica enquanto não vão para o tacho. 

21 de agosto de 2016

Nara - Honshu - Japan


Na tarde em que me despedi dos meus amigos ainda fiz uns 200 Km. Cheguei à conclusão que tanto as estradas como a paisagem nestas ilhas são mais interessantes para o interior de serra que na costa pois a construção japonesa não faz jus aos antigos pagodes e é muito feia, de um modo geral. O interior das ilhas tem muito pouca construção e muita vegetação com grandes declives resultando em paisagens fantásticas.
Pelas quatro e meia da tarde comecei a procurar um Hotel mas, ainda por causa do Obon, em que os japoneses tiram uns dias de férias, estavam todos cheios. Num dos vários em que parei ainda veio a menina a correr cá fora quando eu estava a arrancar dizer que tinha acabado de falar uma pessoa a cancelar mas era caro para o meu orçamento e segui viagem. Era quase noite quando finalmente encontrei um quarto. Entretanto tinha ficado sem dinheiro porque naquela ilha os cartões estrangeiros não funcionam nas máquinas multibanco, onde me abasteço em todos os países. Felizmente nos hotéis e bombas de gasolina deixavam-me pagar com cartão de crédito e, como levo comigo uns dólares de reserva, no dia seguinte, ao terceiro banco lá consegui trocar 100.
Continuei perto da costa oriental sem mapa e portanto evitando afastar-me muito. Pelas quatro da tarde fui a um hotel perguntar se tinham vagas mas como estava cheio optei por acampar num parque de campismo junto à praia, só o segundo que vejo no Japão.
Encontrei um americano que tinha estado três anos a dar aulas de inglês na ilha e partira, estrada fora, numa viagem de bicicleta até Tokyo. Foi bom poder mais uma vez falar com alguém pois para além do Servio e da mulher passei a semana toda só a comunicar por gestos ou, em muitos casos, eu a falar inglês e eles, sem perceberem patavina, a responderem em japonês, como se eu percebesse perfeitamente.
Choveu a noite toda, felizmente já depois de ter montado a tenda. Mesmo assim dormi bastante bem e só acordei perto das oito. Tomei um grande banho de mar e depois um duche nos balneários da praia que funcionava com moedas de 100 yenes. Quando pus a primeira não reparei que não tinha mais de maneira que me vi naquela situação tipo Mr Bean em que tive que voltar a vestir o fato de banho com o corpo coberto de sabão e a cabeça de shampoo, para ir à loja local trocar dinheiro.
Nesse dia deixei a ilha de Shikoku e voltei à confusão de Honshu, a maior e onde estão as principais cidades japonesas. Fui direito a Nara, a mais antiga capital, antes de Kyoto e Tokyo, que um japonês me tinha recomendado visitar. Chegado lá fui direito ao parque da cidade que tem a curiosidade de ter centenas de pequenos veados à solta, que se passeiam tranquilamente pelo parque, por vezes vindo para as estradas, alimentados por bolachas dadas pelos turistas. Criam um ambiente giro. No dia seguinte voltei lá para visitar o templo Todai Ji onde está uma das maiores estátuas de Buda e certamente a mais valiosa. Tem quinze metros de altura e para a construir foram utilizadas 437 toneladas de bronze e 130 de ouro. Fantástico.
Fui ainda visitar o Kofuku Temple que, com cinco andares, foi transferido de Kyoto em 710 d.c. para residência da família Fugiwara, a mais influente da época.
Da parte da tarde, antes de partir para Kyoto  passei a ver o mais antigo templo Japonês, o Horyu-Ji, fundado no ano de 607.

19 de agosto de 2016

Shikoku Island






Já estava perto da costa oriental da ilha e tinha decidido atravessar para Shikoku, com um certo medo porque achei que não podia gostar tanto do resto do Japão como daquela ilha de Kyushu.
Arranquei a caminho do ferry passava pouco das dez e ao meio dia e meia estava no porto de Usuki. Sabia que só havia dois ou três ferries por dia mas sem ver as horas pensei em ir até ao porto e esperar pelo próximo, mesmo que isso significasse ter que lá ficar para o dia seguinte.
Estava um barco atracado e a carregar. Comprei o bilhete e fiquei no hall de entrada à procura de qualquer coisa para comer na viagem de três horas e meia.
Estava por ali distraído quando um homem de capacete plástico na cabeça vem ter comigo a mostrar uma mensagem escrita no telemóvel pelo tradutor automático.
“they’re waiting for you to go on board”.
O barco estava à minha espera para partir. Assim, dez minutos depois de ter chegado ao porto estávamos a “largar ferro”.
O mar ali é muito calmo e a viagem é linda, através de várias das muitas pequena ilhas que compõem o Japão. Viajei quase sempre cá fora e só lá fui dentro para almoçar uma sopa de massa com supostamente marisco que comprei numa máquina automática. Horrível.
A sala dormitório era composta por quatro grandes espaços alcatifados onde os viajantes se deitavam. Lembrei-me logo dos quartos de pensão ao estilo japonês, que consiste em dormir no chão.
Cheguei a Shikoku sem conseguir arranjar um mapa da ilha e por isso quando saí do barco decidi manter-me mais ou menos junto à costa, com uma ou outra saída para o interior e estradas fantásticas de montanha, nesta ilha mais estreitas e sinuosas e portanto menos divertidas mas muitas delas praticamente desertas.
Numa dessas, depois de circular uns 30 Km sem ver um carro, cheguei ao alto de uma montanha e parei fascinado com a vista cá para baixo. Via-se densa vegetação por ali abaixo até uma aldeia, junto ao mar e, mais ao longe, pequenas ilhas cujo contorno tinha uma ligeira neblina que fazia com que parecessem estar a flutuar. Uma imagem extraordinária que não vou esquecer e que para mim, que sou ateu, me levou a desconfiar que Deus talvez exista.
Desci cá a baixo.
Parei numa loja da aldeia para comprar uma banana e água e, sendo quatro e meia da tarde pensei em procurar um Hotel. Quando saía da loja vi um homem ocidental, alto e forte, de barba por fazer e cabelo loiro apanhado num pequeno rabo de cavalo, dos seus quarenta e poucos anos.
-Do you speak english?
-Of course I speak english.
-O que é que faz num sítio destes?
-Isso pergunto eu? respondeu ele.
Era um Servio que ali tinha vindo parar com uma japonesa que conhecera no Sri Lanka. Vieram para aquela aldeia na ilha de Shikoku porque o governo japonês está a dar incentivos para que as pessoas regressem a estas aldeias perdidas na província. Era uma aldeia de pescadores que envelheceram e a nova geração partiu para as grandes cidades. O mesmo problema que temos em Portugal com o interior. A estes meus amigos o governo ofereceu um ordenado à japonesa para trabalhar na junta de freguesia local, além de apartamento por três anos e... um carro. Estão ali há dois anos e meio e o Servio, enquanto não arrancam com o negocio de Catering que estão a montar, chateia-se que nem um peru e afoga as mágoas numa espécie de aguardente que transporta num frasco e vai bebendo ao longo do dia. Disse-me que eu fui o único estrangeiro que por ali apareceu nos últimos dois anos.
Quando lhe perguntei por um Hotel convidou-me logo para ficar em casa deles e lá o acompanhei. Recomendou-me que levasse uma cerveja da loja que não tinha em casa e, sendo um artista, pintor, interessante e culto, passamos o resto da tarde à conversa, eu a beber a minha cerveja, que mais tarde voltei à loja reforçar a dose, e ele na sua aguardente. A mulher só voltou do trabalho às dez da noite quando o homem já estava “para lá de Bagdad”, como diz o meu filho. Muito simpática foi logo aspirar o meu quarto e fazer-me a cama de lavado e ficamos à conversa quando o Alex caiu a dormir.
No dia seguinte fez-nos um bom pequeno almoço, com ovos e torradas, e partimos os três visitar o local onde, dois anos antes, se tinham casado, no alto da montanha com vista deslumbrante sobre o mar, semelhante aquele onde tinha estado no dia anterior. Passámos depois a visitar um amigo deles que tem uma exploração de laranjas na serra. Ali plantam as laranjeiras em declives muito acentuados e para recolherem as laranjas têm, cada um dos agricultores, uma linha férrea em miniatura com uma pequena locomotiva, de cerca de um metro de comprimento e duas carruagens que descem e sobem o íngreme terreno.
Fomos depois almoçar os quatro ao que me pareceu o único restaurante da aldeia, junto à praia, para depois me despedir deste simpático casal e do agricultor japonês, que já falava um pouco de inglês, ensinado pelo artista sérvio.

17 de agosto de 2016

Saiki - Kyushu



Depois de um dia de passeio fantástico através das montanhas, com estradas fabulosas, com pouco transito e sem um policia à vista, o que me levou a escandalizar mais uns japoneses, destabilizados nos seus passeios pela passagem de uma moto ao dobro da velocidade deles, parei num café para perguntar se sabiam de um Hotel. Ainda estavam fechados mas, vendo um estrangeiro, duas meninas vieram abrir-me a porta numa excitação. Não falavam uma palavra de inglês mas por gestos, estou perito em mímica, lá disse que procurava um Hotel. Foram logo buscar mapas e números de telefone enquanto chamavam a cozinheira que, sendo filipina, arranhava umas coisas de inglês. Estivemos ali na risada e entretanto foram falando para vários hotéis da zona até encontrarem um, a cerca de 30 Km.
Entretanto, fora do restaurante, a fazerem-me muitos gestos à janela, estava um grupo de meninas dos seus 14 anos fardadas da escola, também excitadíssimas por verem um estrangeiro. Disse-lhes adeus e quando saí vieram rodear a moto a pedir-me “sign, sign”. Não queriam propriamente um autógrafo mas simplesmente a assinatura de um ocidental em caracteres que não os seus. Disse-lhes que sim e foram a correr buscar papéis e canetas. Quando lhes disse que me chamava Francisco uma delas respondeu logo: “Ha, ha. Francisco Xavier”.
Aprenderam no colégio que S. Francisco Xavier foi quem trouxe o catolicismo para o Japão. Mesmo que não tenha tido muito sucesso 1% dos japoneses são católicos, o que dá qualquer coisa como um milhão e duzentos mil.
Cheguei ao Hotel pelas seis da tarde e mais uma vez as meninas da recepção faziam muitas vénias mas não falavam uma palavra de Inglês.
Andava há dias com um problema por não conseguir encontrar uma ficha que me permitisse carregar o computador. As tomadas japonesas têm dois rasgos ao alto e se nos hotéis da ilha principal tinham sempre esses adaptadores nesta ilha, por não terem turistas estrangeiros, nenhum tinha. Estava a explicar o problema à gerente, uma rapariga dos seus 35 anos, quando ela disse: “Venha no meu carro que eu levo-o a uma loja que conheço”. Lá fui com a rapariga, a dez à hora, sem muita esperança de encontrar o adaptador. Até nas passagem de nível abertas eles param para ver se vem algum comboio.
Chegámos à loja e havia mesmo a peça. Fiquei tão contente que lhe dei um beijo na cara. Ela, habituada desde sempre a falar a estranhos através de vénias, ficou atrapalhada mas gostou do afecto porque antes de entrarmos no carro levantou a mão para eu bater contra a dela e, no dia seguinte, quando estava a tomar o pequeno almoço, veio bater a uma janela que havia entre a recepção e o restaurante para me dizer adeus, com um ar maroto.
Naquele hotel o terrível jantar estava incluído na estadia e estava eu já no quarto quando ouvi bater à porta muito suavemente. Pensei que não era nada e continuei no computador mas passado meio minuto novamente um bater muito leve. Fui abrir a porta e estava uma das meninas da recepção a tentar explicar entre muitos sorrisos que se tinha esquecido de me pedir o ticket do jantar. Ah, claro. Lá lhe dei o ticket e fiquei, de porta aberta, à espera que ela acabasse as infindáveis vénias e, sem querer ser desagradável, ia fazendo também umas poucas.  Extraordinário.

16 de agosto de 2016

Taketa - Kyushu




Quando deixei a fabrica da Honda comecei por subir ao monte Aso, por trás da fábrica, por recomendação de um dos japoneses. Lá no alto atravessei um enxame de gafanhotos que batiam com força contra a carenagem e o capacete, felizmente fechado.
Mas a vista lá de cima compensou. Fabulosa, com um raio de 180º sobre um imenso vale que parece ter resultado da erosão sobre uma ou várias crateras de vulcão. Fiquei um bom quarto de hora parado, no alto, a respirar aquela vista.
Arranquei depois rumo a oriente, atravessando esta ilha Kyushu para a costa oposta. A princípio, ainda perto da fabrica, apanhei algumas estradas cortadas e outras em reparação, por terem caído com o tremor de terra, mas uns quilómetros à frente já estava a percorrer fantásticas estradas de montanha com pouco transito e sem policia. Um gozo.
Pelas cinco da tarde pensei em encontrar um hotel onde ficar mas não via nenhum. Até que apanhei um posto de informações. A senhora gorda, com a cara tapada por uma destas mascaras de papel, como se vê aqui bastante, indicou-me um hotel demasiado caro para o meu orçamento pois os na casa dos 50 euros estavam esgotados. Pedi-lhe que procurasse mais barato e o disponível era uma pequena pensão.
-Boa! Quanto custa?
-15 euros pelo quarto mais cinco pela cama.
-Mas alugam o quarto sem cama?
-(a rir-se)Não sei. É o que vem aqui.
-Tudo bem. Então reserve um quarto e uma cama. Tudo à grande.
Quando lá cheguei uma simpática senhora que não falava uma palavra de inglês, como todas as outras por aqui, esperava-me cá fora não fosse eu não ver a pensão na estrada. Indicou-me o quarto, do tipo japonês, ou seja, vazio.
Tinha uma espécie de edredon no chão que fazia de colchão, com lençóis lavados. Pedi mais dois para colocar debaixo daquele e instalei-me. Quando perguntei onde podia jantar, tudo por gestos, estou perito em mímica, a senhora fez uma careta e ligou para o único restaurante da aldeia. Estava fechado por ser segunda.
Pensou um pouco e decidiu ligar a um vizinho para que me desse de jantar. Deve se hábito porque o vizinho prontificou-se logo a cozinhar-me jantar. Ainda pelo telefone perguntou-me o que queria e como “curry” foi a única palavra que percebi foi o que escolhi. Combinei estar em casa do vizinho às oito.
Lá estava ele ao fogão a acabar de cozer o arroz e um lugar posto para mim na mesa. Arranjou-me uma cerveja que aqui já aprendi chamam “Biko”. Tinha acrescentado uns panados de porco à ementa com medo que eu não me alimentasse só com o Curry e no fim cobrou-me 9 euros pela refeição. Fantástico.
Dormi bem mas no dia anterior tinha dado um jeito nas costas e naquela manhã, talvez pela estrutura da “cama”, estava pior. Vi-me aflito para me levantar mas tomei uma aspirina, o único remédio que viaja comigo para além de betadine para as feridas, mordidas de insecto, etc., e lá consegui pôr-me de pé. Fui a uma mercearia comprar um iogurte e pão para o pequeno almoço e parti, pelas dez da manhã, visitar, de barco a remos, umas cascatas sobre um pequeno rio.
Estive por lá cerca de hora e meia e segui viagem por estas estradas de montanha fantásticas da ilha de Kyushu.